Em tarde de forte recuperação também em Nova York, onde os principais índices mostraram alta de até 3,83% (Nasdaq) no fechamento, o Ibovespa ganhou impulso para encerrar o mês e o trimestre na casa dos 187 mil pontos, no maior nível desde o dia 2 de março, então aos 189 mil. Em alta de 2,71% nesta terça-feira, aos 187.461,84 pontos no fechamento, o índice oscilou entre mínima da abertura, a 182.515,40 pontos, e máxima de 187.507,77 pontos, com giro a R$ 37,9 bilhões.
No primeiro trimestre, o Ibovespa acumulou ganho de 16,35%, no que foi seu melhor desempenho desde o último trimestre de 2020 – lembrando que todo o ano de 2020 foi marcado pela volatilidade da pandemia de covid-19. Considerando apenas os trimestres iniciais, foi também o melhor janeiro-março desde 1998, conforme série compilada pelo AE Dados: naquele intervalo, a variação positiva do índice ficou na casa de 57%.
Dessa forma, o desempenho deste primeiro trimestre foi mais agudo do que o de outras fortes aberturas de ano, como as de 2022, quando havia avançado 14,48% entre janeiro e março, e também o ganho dos três primeiros meses de 2016, há 10 anos, então em alta de 15,47% no mesmo intervalo.
No mês, refletindo a retomada da aversão a risco global em meio ao conflito no Oriente Médio, o Ibovespa recuou 0,70%, no que foi a sua primeira perda desde julho do ano passado, quando havia cedido 4,17% antes de o índice encadear sete meses de ganhos.
Com a moeda norte-americana em alta de 0,87% no acumulado de março, o Ibovespa em dólar fecha o mês a 36.199,32 pontos. Em dólar, no fim de fevereiro, estava em 36.771,90 pontos, com a moeda americana, então, ainda em baixa no mês. No fechamento de janeiro, o Ibovespa havia chegado a 34.561,30 pontos, refletindo também a queda de 4,40% acumulada pela moeda americana frente ao real no primeiro mês do ano. Apesar do estilingue, o Ibovespa permanece longe do topo de julho de 2008, em dólar. Naquela época, convertido para a moeda americana, quase encostou nos 45 mil pontos, com o dólar girando então em torno de R$ 2,20. Para que atinja valores similares em dólares, precisaria se aproximar dos 240 mil em termos nominais.
“Hoje, o mercado se animou com os primeiros sinais, pelo lado iraniano, de que uma negociação para a suspensão do conflito esteja de fato caminhando, desde que os Estados Unidos ofereçam garantias para a paz”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos. “O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também está de olho, cada vez mais, no cenário interno e quer encontrar logo uma solução”, acrescenta o analista, referindo-se às eleições de meio de mandato, no fim do ano, com renovação da Câmara e do Senado, e desfecho que pode ser desfavorável a Trump e aos republicanos, caso o preço do petróleo continue a pesar no bolso do consumidor americano.
“Em resumo, o mercado comprou hoje a ideia de que existe chance de distensão no Oriente Médio, e isso bastou para impulsionar bolsas, derrubar dólar e aliviar juros. Mas o cenário segue muito sensível: basta uma nova frustração diplomática ou avanço militar para a volatilidade voltar com força. Hoje, houve alívio, mas ainda não dá para chamar de solução”, observa Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil.
“O Irã afirmou, à tarde, ter interesse no cessar-fogo desde que sejam oferecidas algumas garantias, o que acelerou o ritmo da melhora vista desde mais cedo na sessão, o que resultou em fechamento da curva de juros com efeito benéfico, também, para as empresas com exposição a juros e ao ciclo doméstico”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.
Assim, das 83 ações da carteira Ibovespa, apenas quatro fecharam o dia em baixa: Prio (-8,17%) e MBRF (-3,09%), além das duas ações de Petrobras (ON -1,35%, PN -2,01%), com as ações de energia afetadas em parte pela virada do petróleo na etapa vespertina, ante a perspectiva de paz no Oriente Médio. Na ponta vencedora do índice, Natura (+12,99%), Magazine Luiza (+9,62%), B3 (+7,98%) e Cosan (+6,11%).
Entre os bancos, os ganhos da sessão chegaram a 4,52% no principal papel do segmento, Itaú PN, no fechamento. Principal papel do Ibovespa, Vale ON encerrou a sessão em alta de 3,75%.
Dólar
O dólar aprofundou as perdas ao longo da tarde e furou o piso de R$ 5,20 nesta terça-feira, 31, com o aumento do apetite ao risco no exterior diante de expectativas crescentes em torno do fim do conflito no Oriente Médio. Após circularem informações de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump estaria inclinado a pôr um ponto final na guerra, e que o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que o país concordaria em encerrar as hostilidades se houvesse garantias contra novas agressões.
As cotações do petróleo, que rondavam a estabilidade no fim da manhã, passaram a operar em terreno negativo, embora tenham se mantido acima da marca de US$ 100 o barril. As bolsas em Nova York subiram mais de 2%, levando de roldão o Ibovespa, e o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – furou o piso dos 100,000 pontos, com mínima aos 99,808 pontos.
Por aqui, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 1,32%, a R$ 5,1786, na mínima da sessão. Trata-se do menor valor de fechamento desde o último dia 11 (R$ 5,1593). Depois de perdas de 2,16% em fevereiro, a moeda americana acumulou alta de 0,87% em março, mas encerrou bem longe do pico de fechamento do mês, no dia 13 (R$ 5,3163). No ano, o dólar recua 5,65% em relação ao real, que apresentou o melhor desempenho no primeiro trimestre entre as principais moedas globais.
“Tivemos hoje um maior apetite ao risco com essas informações de que Trump quer abreviar o conflito no Oriente Médio. Março foi marcado por muita volatilidade da taxa de câmbio com as notícias sobre a guerra”, afirma o sócio da One Investimentos Victor Soares, ressaltando que a sessão foi marcada por questões técnicas, como a disputa pela formação da última taxa ptax de março e do trimestre.
Na segunda à noite, reportagem do The Wall Street Journal revelou que Trump teria dito a assessores que aceitaria encerrar a campanha militar no Oriente médio mesmo sem desbloqueio total do Estreito de Ormuz – por onde é escoada cerca de 20% da oferta global de petróleo. Na avaliação de Trump, uma operação para reabrir o corredor extrapolaria seu prazo de 4 a 6 semanas para a guerra.
Ao The New York Post, o presidente dos EUA disse que a guerra contra o Irã provavelmente terminará em breve – e que outros países podem reabrir o Estreito de Ormuz por conta própria. “Minha única função era garantir que eles não tivessem uma arma nuclear. Eles não vão ter uma arma nuclear. Quando sairmos, o estreito abrirá automaticamente”, apontou Trump, em relação aos objetivos americanos ao atacar o Irã em conjunto com Israel.
O economista-chefe da Equador Investimentos, Eduardo Velho, ressalta que a manutenção dos preços do petróleo acima de US$ 100 por período prolongado poderia levar a economia americana para um quadro de estagflação – o que ajudaria a explicar a possibilidade de Trump estar inclinado a dar um fim ao conflito no Oriente Médio. Velho pondera que os sinais, por ora, são contraditórios, dado que os EUA continuam a atacar a infraestrutura iraniana e aumentar o número de tropas estacionadas na região.
“O real se apreciou hoje com menor demanda pela moeda americana com a possibilidade de que fim da guerra esteja mais próximo. Em março, houve ingressos externos da bolsa e fluxo comercial acima do padrão para o mês, mesmo com o conflito no Oriente Médio, o que impediu uma alta maior do dólar”, afirma Velho.
Em relatório, o Citi ressalta que o choque recente nos preços do petróleo impulsiona os termos de troca do Brasil e favorece o real, embora a moeda brasileira também seja sensível a episódios de aversão global ao risco. Pelas contas do banco, um aumento de 35% nos preços da commodity por três meses adiciona cerca de US$ 2,5 bilhões no superávit comercial brasileiro.
Dada a incerteza sobre a persistência das tensões geopolíticas e a possibilidade de um fortalecimento global da moeda americana em caso de aumento da percepção de risco, o Citi trabalha com “uma depreciação moderada” do real nos próximos meses, com a taxa de câmbio encerrando 2026 em torno de R$ 5,40.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 percorreram o pregão desta terça-feira, 31, em firme baixa, com redução que alcançou mais de 0,3 ponto nos vencimentos intermediários, conforme o otimismo sobre uma resolução do conflito no Oriente Médio foi reforçado rumo ao final da sessão.
No início desta tarde, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que o país não busca prolongar o confronto e está disposto a encerrá-lo, desde que haja garantias contra novas ofensivas. A sinalização iraniana se somou a notícias de que o presidente dos EUA, Donald Trump, aceita terminar a campanha militar no país persa mesmo que o fluxo de navegação no Estreito de Ormuz não seja liberado. Segundo apuração do Wall Street Journal, veiculada na noite de segunda, a intenção do republicano foi compartilhada por ele com assessores.
A percepção mais positiva a respeito das negociações entre os dois países favoreceu os ativos de risco como um todo e conferiu alívio adicional à curva de juros, cujas taxas intermediárias renovaram mínimas intradia por volta das 16h20. Por aqui, a geração de vagas formais veio um pouco mais fraca em fevereiro, mas, segundo profissionais de renda fixa, não surtiu efeito nos DIs, assim como dados fiscais publicados pela manhã.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 14,297% no ajuste anterior a 14,105%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 13,725%, vindo de 14,055% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 diminuiu de 14,117% a 13,83%.
“O mercado colocou no preço as falas de que o Irã está preparado para encerrar a guerra. O petróleo cedeu, o que empurrou os Treasuries para baixo e derrubou também os DIs”, afirma Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. O contrato futuro de Brent para junho caiu 3,18% nesta terça-feira, mas fechou ainda acima do patamar de US$ 100 o barril, a US$ 103,97.
Segundo Sanchez, os DIs continuam muito atrelados ao ambiente externo, inclusive nos trechos mais curtos da curva futura. “Nosso curto prazo está refletindo um ciclo baixista da Selic muito tímido, e a justificativa é a cautela apontada pelo Copom e pelo Gabriel Galípolo, associada ao mercado internacional”, avalia. Em evento do qual participou ontem, o presidente do BC endossou perspectivas de que a calibração no juro iniciada em março vai continuar, mas em ritmo cauteloso.
Para o economista, os indicadores domésticos conhecidos nesta terça, com toda a atenção dos investidores voltada à guerra, não surtiram efeito sobre a curva. Um gestor de renda fixa de uma grande asset, que prefere não se identificar, concorda. “É tudo sobre guerra”, comentou. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou que 255,3 mil vagas formais foram criadas em fevereiro, abaixo da mediana de 269 mil do consenso de mercado.
Do lado da oferta, em um contexto de maior volatilidade do mercado, o Tesouro Nacional fechou o mês de março com um leilão reduzido, de 450 mil Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B), das quais 327,15 mil foram vendidas.
Apesar da descompressão observada nas últimas sessões, o saldo do mês foi de forte elevação dos DIs. Março foi marcado por zeragens de posições aplicadas devido à aversão ao risco causada pelo conflito e, também, por mudança na precificação dos agentes para o ciclo de cortes da Selic, que deve ser mais magro, além de intervenção do Tesouro no mercado para reduzir disfuncionalidades.
Desde o final de fevereiro, a taxa do DI para janeiro de 2027 saltou mais de 80 pontos-base. O DI para janeiro de 2029 disparou 108 pontos-base, e o DI para janeiro de 2031 acumulou avanço de 79 pontos-base no mês.


