O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Passos Rodrigues, elogiou nesta terça-feira, 10, o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, por, em sua avaliação, ter tido “coragem” de “enfrentar um problema que já vinha de outras gestões” – em alusão à fraude bilionária do Banco Master.
Andrei citou Galípolo na reunião de balanço dos órgãos vinculados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao mencionar a importância da cooperação entre as instituições.
“Essa integração pautada pela lei e regulamentos que norteiam a administração pública nos permitiu desvendar aquilo que, não tenho dúvida, é talvez o maior crime que envolve o mercado financeiro e uma instituição financeira. Isso foi possível graças à coragem do presidente Galípolo de enfrentar um problema que já vinha de outras gestões e que ele teve a coragem e a capacidade de levar à Polícia Federal esses dados”, disse.
Andrei foi questionado posteriormente se a PF identificou omissões ou ações de gestões anteriores no caso Master. “O que percebemos é que já havia outros alertas em outros momentos. (…) Se nós encontrarmos elementos de que a fraude foi anterior, nós vamos abrigar todo o lapso temporal para podermos concluir, inclusive temporalmente, o que houve e não houve e quem deixou de agir, agiu corretamente ou de maneira maliciosa”, respondeu.
Como mostrou o Estadão, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto sabia dos problemas do Master e evitou intervir no banco, mas deu um prazo para a instituição melhorar seus indicadores, práticas de governança e gestão de risco. A medida foi adotada na reta final de sua gestão, que terminou em 31 de dezembro de 2024.
Uma comunicação enviada pelo Banco Master ao Banco Central em 7 de novembro de 2024 revela que o banqueiro Daniel Vorcaro se comprometeu a adotar uma série de medidas para melhorar a governança corporativa do Master e a recompor a saúde financeira do banco em um prazo de seis meses, até maio de 2025.
O ofício, ao qual o Estadão teve acesso, é uma resposta do Master a um termo de compromisso enviado pelo BC. O documento mostra que o banco privado recebeu uma espécie de ultimato da autoridade monetária sob a gestão de Campos Neto, um ano antes de ser liquidado por Galípolo, em novembro de 2025.
“Vamos investigar até o final deste caso para não deixar que nenhum achado ou dado neste caso fique sem ser esclarecido”, afirmou Andrei.
Resultados do Ministério da Justiça
Na reunião, Andrei apresentou dados dos resultados produzidos pela PF em 2025. Segundo o diretor-geral, a corporação alcançou um índice de 85% de solução de crimes. Segundo o chefe da corporação, o crime organizado teve prejuízo de R$ 9,5 bilhões por ações da polícia, que levou a apreensões de dinheiro vivo, imóveis e veículos.
Em 2026, a Polícia Federal tem 47 mil inquéritos em tramitação e, segundo Andrei, reduziu de 650 para 450 dias a média de duração dessas investigações.
“É a autonomia investigativa que nos permite esses avanços e nós buscamos a excelência da prova. A PF não tem que achar nada, deduzir nada, não tem que ter convicções, precisa encontrar provas”, afirmou Andrei. Recentemente, delegados apontaram intervenção indevida do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli no trabalho da corporação ao impedir que os materiais apreendidos no inquérito do Master fossem periciados e ficassem sob custódia da PF.
Outros integrantes do Ministério da Justiça também compartilharam os resultados das suas áreas. O diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Antônio Fernando Souza Oliveira, mencionou a apreensão 719 toneladas de maconha e 44 toneladas de cocaína em 2025 como “um prejuízo considerável ao crime organizado”. A corporação foi responsável por mais de 41 mil detenções no ano passado.
Já o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, agradeceu a cooperação de parceiros em seu início de gestão, com destaque ao Congresso Nacional.
No último dia 28 de janeiro, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou que deve pautar a discussão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública após o carnaval. O texto é a principal aposta do governo Lula numa área que é constantemente apontada como causa de oscilações negativas na avaliação da atual gestão. Governadores de direita são contrários à proposta e afirmam que o texto tira a autonomia dos Estados.
Segundo o ministro, “o governo federal não se furtará da tarefa de ser o indutor” do debate da segurança pública em parceria com outras instituições e governos estaduais. “Sem esse envolvimento do aparelho de estado e de toda a institucionalidade brasileira, não estaremos à altura do desafio”, disse. “Toda a sociedade e todo o aparelho de estado precisam se conscientizar que não é um êxito para esse ou aquele segmento”, completou.


