Depois de semanas de apreensão, o anúncio das tarifas dos Estados Unidos sobre importações acabou sendo recebido com alívio no Brasil. A associação das empresas que realizam comércio exterior, seja com exportações ou importações, por exemplo, considerou, de certa forma, positivo o anúncio de que o Brasil ficou no piso das tarifas recíprocas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Podemos dizer que estamos aliviados, porque, na verdade, o porcentual veio menor do que a gente imaginava, ainda que maior do que seria adequado”, disse José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Os produtos brasileiros terão de pagar no mínimo 10% para entrar nos Estados Unidos, menos do que as alíquotas anunciadas, por exemplo, para a China (34%) e a União Europeia (20%).
Segundo Castro, diante das tarifas mais altas a concorrentes, é possível que o “tarifaço” de Trump melhore a competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano.
Uma das possibilidades, avalia, é as matrizes dos Estados Unidos importarem mais de suas filiais do Brasil, dentro das operações comerciais “intercompany”. Ele pondera, no entanto, que é preciso reduzir o custo de produção no Brasil para que isso se torne uma realidade para um maior número de produtos da indústria de transformação, os manufaturados.
“Teoricamente ajuda (na competitividade), mas o problema não é lá, é aqui. Nosso Custo Brasil é muito alto, não temos preço competitivo”, diz o presidente da AEB.
Na avaliação do ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, “podia ser pior”. “Na prática, vai ser 10% para o mundo inteiro, e maior para parceiros importantes (dos EUA), como é o caso de China (34%), União Europeia (20%) e Japão (24%)”, afirma.
CASO A CASO
Conforme Barral, eventuais ganhos de competitividade do Brasil nos Estados Unidos, em razão da maior alíquota sobre grandes concorrentes, terão de ser analisados produto a produto. Ele coloca como contraponto o fato de aço e alumínio, dois setores que têm grande parte das exportações destinada aos EUA, terem recebido tarifas de 25%, na primeira ação da política comercial de Trump que atingiu o Brasil.
“Então, temos de fazer uma análise caso a caso para saber se o Brasil pode ganhar em algum mercado, principalmente nos que concorre com a Europa e Japão”, afirma Barral.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, também considerou que a taxação de 10% para as exportações brasileiras foi até um certo alívio. “Não foi uma coisa tão violenta (como em outros países)”, disse. Ele não vê, por exemplo, grandes impactos para o setor de petróleo no País, já que há algum tempo os Estados Unidos deixaram de ser o grande comprador do petróleo brasileiro.
COMÉRCIO
A taxação em 10%, média de produtos brasileiros que se proporem a disputar o mercado consumidor dos EUA, como estipulou nesta quarta-feira o presidente Donald Trump, não deixa de ser lamentável do ponto de vista global, mas deve beneficiar a inserção global brasileira. A previsão foi feita pela Federação do Comércio, Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
“Para o Brasil, porém, as notícias não são tão ruins já que muitas nações terão dificuldades em levar seus produtos aos EUA. O governo brasileiro deve se valer da conjuntura tarifária vinda dos Estados unidos para assinar acordos bilaterais, diminuir tarifas e facilitar mecanismos aduaneiros”, disse a entidade, em nota.
A Fecomércio avalia que o Brasil deveria aproveitar o momento para ampliar suas relações comerciais, sobretudo, no Japão, na China e na União Europeia.
Ainda, de acordo com a entidade, a elevação das tarifas sobre bens básicos, por exemplo, deve desencadear uma inflação generalizada nos preços do mercado interno americano, enquanto as medidas sobre as importações de aço impactarão toda a cadeia dependente dessa matéria-prima. Sem contar algumas commodities essenciais que, mais caras, vão afetar diretamente o orçamento das famílias de baixa renda.