A ocupação por estudantes do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), na Cidade Universitária, Butantã, zona oeste da capital paulista, completou 24 horas na tarde de ontem, sem previsão de acabar. Durante a manhã de sexta-feira, a instituição cortou o fornecimento de água e luz no edifício para tentar forçar o movimento estudantil a deixá-lo. Os alunos, porém, afirmam que só sairão do local após a reitoria retomar as negociações com eles.
O protesto é organizado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE Livre) da USP. Os manifestantes tentam pressionar a universidade a atender às demandas da greve estudantil que teve início no dia 15 de abril. Os alunos exigem melhorias nos refeitórios e aumento do valor das bolsas de permanência estudantil, além de reivindicações próprias de cada curso.
A reitoria chegou a abrir rodadas de negociação com os alunos. Porém, como a proposta não foi acatada pelo movimento, os pró-reitores se recusaram, na última segunda-feira, a encontrar novamente os estudantes para novas conversas, em uma decisão tomada de forma unilateral – o que desagradou os alunos grevistas.
PORTÃO DERRUBADO
Por volta das 16h de quinta-feira, os manifestantes, que antes bloqueavam a entrada do prédio com um cordão humano, derrubaram um portão de metal e invadiram a sede da reitoria.
Um vídeo enviado à reportagem mostra uma grande quantidade de alunos entrando no prédio, empunhando bandeiras e segurando bastões de fumaça. Enquanto invadem o espaço, eles cantam para o reitor da USP, Aluísio Segurado: “Ô, Aluísio, preste atenção, o seu palácio vai virar ocupação”.
Ainda conforme as imagens, gravadas por um dos alunos, é possível ver o portão da reitoria sendo derrubado pelos manifestantes. Um estudante chega a gritar: “Vai quebrar! Quebrou!”. Em outro vídeo, os estudantes passam pelo jardim do prédio e conseguem tombar duas vidraças que dividem a área externa do edifício da parte interna. Com os vidros quebrados, os alunos conseguem acessar o hall da reitoria.
Eles acamparam com barracas desde a noite de quinta-feira no saguão da reitoria e no jardim em frente ao edifício.
Policiais militares já estavam dentro do prédio e fizeram um cordão de contenção para restringir a ocupação. Ontem, os agentes continuavam no local monitorando o ato dos alunos da USP.
‘ESCALADA DE VIOLÊNCIA’
A USP disse lamentar a “escalada de violência” que “levou à invasão do prédio principal da reitoria por manifestantes, com danos ao patrimônio público”. “Diante dessa situação, e respaldada juridicamente, a Universidade adotou as medidas cabíveis, acionando as forças de segurança pública que, já presentes no local, atuam para evitar a ocupação de outros espaços e prevenir maiores danos patrimoniais. Em toda a ação, serão priorizadas a segurança e a integridade física de todos os envolvidos”, afirmou em nota.
‘QUEREMOS NOS FORMAR’
O DCE refuta que o ato seja violento. “Não somos nós que queremos depredar o patrimônio público. Queremos resolver isso o mais rápido possível para voltar para as nossas aulas. Queremos nos formar, queremos fazer os nossos estágios”, disse a integrante da executiva do DCE e aluna de Artes Cênicas Danielly Oliveira.
Apesar da presença policial e da invasão, na quinta-feira, o protesto nesta sexta ocorreu sem tumulto ou truculência. Pela manhã, os alunos realizaram oficinas de kung-fu e capoeira. À tarde, organizaram rodas de conversa. Caixas de som tocavam funk, MPB e música pop. Cartazes colocados no prédio trazem frases como “reitoria ocupada”, “USP em greve por condições dignas de estudo e trabalho”, “mãe, passei na USP, mas tem larvas na minha comida.”
Os universitários tentam barrar a entrada de pessoas no prédio que não sejam do movimento estudantil. Eles chegaram a fazer um cordão de contenção e gritar palavras de ordem depois que uma ex-aluna contrária ao protesto tentou acessar o edifício.
Frases como “não adianta tentar intimidar, nossa greve vai continuar” e “greve geral na educação para barrar a precarização” foram entoadas.


