Dólar tem leve alta, com intervenção do BC e tombo do petróleo, e fecha a R$ 4,92

O dólar à vista reduziu o ritmo de alta na última hora de negócios, com o aumento do apetite ao risco no exterior após declarações positivas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre negociações com o Irã, e encerrou a sessão cotado a R$ 4,9207, avanço de 0,18%. Na máxima, pela manhã, havia atingido R$ 4,9352.

Afora uma queda pontual no início do pregão, quando rompeu o piso de R$ 4,90 ao registrar mínima de R$ 4,8880, o dólar operou em alta no restante do dia, na contramão da tendência global da moeda norte-americana.

Analistas atribuíram o tropeço do real à intervenção do Banco Central, com a oferta de swaps cambiais reversos (equivalente à compra de dólar futuro), e a ajustes técnicos após o rali recente.

O tombo das cotações do petróleo pode ter levado a uma realização de lucros no mercado de câmbio local, uma vez que o real foi a moeda que mais se beneficiou do choque nos preços de energia. Na terça-feira, o dólar fechou no menor nível desde 26 de janeiro de 2024, passando a acumular queda de dois dígitos em 2026.

Apesar da leve alta desta quarta, a moeda norte-americana ainda recua 0,63% na semana. No ano, as perdas somam 10,34%.

Pela manhã, o BC vendeu integralmente a oferta de 10 mil contratos de swaps cambiais reversos, equivalente a US$ 500 milhões. Houve apenas uma proposta aceita. A operação foi anunciada na noite anterior, após o fechamento do mercado. A intervenção, com venda isolada de swaps, surpreendeu a maioria dos analistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), uma vez que o BC tem optado recentemente por ofertas simultâneas de swaps cambiais reversos com a venda de dólares à vista, em operação conhecida como “casadão”.

A avaliação predominante é a de que o BC aproveitou a maré positiva do real e o forte fluxo de recursos para o país para reduzir o estoque de swaps cambiais tradicionais, acima de US$ 95 bilhões. Um volume elevado tende a gerar distorções no mercado cambial, como pressão sobre o cupom cambial (taxa de juros em dólar). Também foi aventada a possibilidade de o BC buscar conter o ritmo de apreciação do real, que apresenta, no curto prazo, desempenho superior ao de pares.

O economista Gustavo Rostelato, da Armor Capital, afirma que o ambiente de maior apetite ao risco no exterior, com as negociações entre EUA e Irã, e o fluxo de recursos para o país têm favorecido o real recentemente. “Diante da apreciação do real, o Banco Central anunciou um leilão de swap reverso, reduzindo seu estoque de swaps cambiais. Esse tipo de operação tem sido relativamente comum nas viradas de mês, porém, desta vez, foi realizada logo no início do mês e em montante menor que o usual”, afirma o economista.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY operou em queda firme e rondava os 98,000 pontos no fim da tarde, após mínima de 97,625 pontos. O iene subiu quase 1%, enquanto a coroa norueguesa, mais sensível aos preços do petróleo, recuou cerca de 0,30% frente ao dólar.

As cotações do petróleo tombaram após o Irã afirmar que o Estreito de Ormuz está liberado para uma travessia “segura e estável”. Na terça, Trump anunciou uma pausa no chamado “Projeto Liberdade”, no qual prometia escoltar navios comerciais retidos no estreito por conta da guerra. O contrato do Brent para julho fechou em queda de 7,83%, a US$ 101,27 o barril.

À tarde, em conversa com repórteres no Salão Oval, Trump afirmou que houve conversas “positivas” com o Irã nas últimas 24 horas e demonstrou otimismo com a possibilidade de um acordo. O presidente dos EUA disse que os iranianos se comprometeram a não desenvolver armas nucleares, um dos principais objetivos de Washington com a ofensiva no Oriente Médio.

No Brasil, o BC divulgou à tarde que o fluxo cambial total em abril foi positivo em US$ 9,291 bilhões, com entrada líquida de US$ 2,674 bilhões pelo canal financeiro, que abrange investimentos em carteira, como aportes em renda fixa e bolsa.

Em carta mensal de maio, a Santander Asset Management Brasil (SAM) afirma ter adotado uma “visão positiva para o real”, que tem mostrado “comportamento resiliente ao longo do ano, mesmo em um ambiente global marcado por muitas incertezas”.

“O fluxo estrangeiro para os ativos locais, combinado à manutenção de um diferencial de juros elevado entre Brasil e EUA, segue dando suporte ao desempenho da moeda. Além disso, a permanência do preço do petróleo em patamares elevados tende a beneficiar os termos de troca do Brasil e contribui para uma dinâmica mais favorável da balança comercial”, afirma a gestora.

Bolsa

O Ibovespa conseguiu emendar um segundo dia positivo, série curta que, contudo, não era vista desde a primeira metade de abril, quando o índice encadeou 11 altas, entre 30 de março e 14 de abril, sequência que o alçou a novas máximas históricas bem perto do limiar dos 200 mil pontos. Nesta quarta-feira, 6, flutuou dos 186.762,11 até os 188.674,36 pontos, com mínima correspondente ao nível de abertura. Ao fim, marcava 187.690,86 pontos, em alta de 0,50%, com giro a R$ 29,2 bilhões. Na semana e no mês, o índice passa ao positivo (+0,20%), e no ano sobe 16,49%.

As principais ações da B3 operaram no campo positivo, à exceção de Petrobras (ON -3,77%, PN -2,86%) e de Itaú (-1,60%), que divulgou na terça-feira à noite balanço forte, mas em linha com o esperado. Bradesco (ON +0,67%, PN +0,42%) com previsão de divulgação dos resultados trimestrais após o fechamento do mercado financeiro.

Em Nova York, os principais índices subiram mais de 1% na sessão, com destaque para o tecnológico Nasdaq (+2,02%) e o amplo S&P 500 (+1,46%), ambos em novos recordes. Por aqui, o dólar à vista teve leve viés de alta (+0,18%), na casa de R$ 4,92 no fechamento do câmbio. Os rendimentos dos Treasuries e a curva do DI cederam terreno nesta quarta-feira.

Na B3, destaque para a forte recuperação de Vale ON, principal ação do Ibovespa, que neutralizou as perdas da semana e do mês com um ganho de 3,62% na sessão. Na ponta ganhadora do índice, C&A (+7,06%), Cury (+6,89%) e CSN (+6,86%). No lado oposto, TIM (-7,88%) e Prio (-4,26%) à frente das duas ações de Petrobras, em dia no qual os contratos futuros mais negociados do Brent e do WTI mergulharam 7%, em Londres e Nova York.

A produção de petróleo bruto da Opep caiu para nova mínima em 36 anos no mês passado, com a guerra no Irã sufocando as exportações do Golfo Pérsico e levando a mais interrupções, de acordo com pesquisa da Bloomberg. A produção caiu em 420 mil barris por dia, para 20,55 milhões por dia em abril. É o menor nível desde 1990, com perdas mais profundas no Kuwait e Irã.

Em desdobramento negativo, o Exército dos Estados Unidos informou nesta quarta-feira ter disparado contra um petroleiro iraniano, no momento em que o presidente Donald Trump pressiona Teerã a chegar a um acordo para encerrar a guerra. Um caça americano atingiu o leme do petroleiro no Golfo de Omã enquanto a embarcação tentava romper o bloqueio militar dos EUA aos portos iranianos, informou o Comando Central dos EUA em publicação nas redes sociais.

Mas a descompressão observada nos preços da commodity na sessão – e a correspondente retomada do apetite por ativos de risco, como ações – decorreu de um otimismo maior quanto a um possível acordo entre Estados Unidos e Irã, o que reduz temores sobre interrupções no fornecimento global de petróleo.

À tarde, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que o Irã se comprometeu a não desenvolver armas nucleares, mencionando que teve “discussões positivas” com o país persa nas últimas 24 horas. E o secretário da Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, disse que, com ou sem um acordo com o Irã, Washington vai garantir o livre fluxo através do Estreito de Ormuz. Em outro desdobramento favorável, o Irã indicou que a passagem está liberada para uma travessia “segura e estável”.

“Possibilidade de reabertura de Ormuz despertou forte apetite por risco desde o exterior, com acentuada correção também nos preços do petróleo”, diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, destacando em especial a recuperação observada nas ações com maior exposição a juros, como as de construção e de varejo, associadas ao ciclo doméstico.

“As bolsas globais reagiram bem, e aqui no Brasil não foi diferente. Esse clima positivo ainda se somou a uma temporada de balanços corporativos bem movimentada”, diz Luise Coutinho, head de produtos e alocação da HCI Advisors. “Bancos e mineradoras seguraram o índice ao longo do dia, com a entrada de capital estrangeiro favorecendo a alta do Ibovespa”, acrescenta Luise.

Ela observa que, no exterior, a temporada de balanços também segue forte, com o S&P 500 e o Nasdaq em máximas históricas puxadas, principalmente, pelos sólidos resultados de empresas de tecnologia.

Juros

Entre idas e vindas do mercado local de renda fixa ao sabor das notícias sobre a guerra, o pregão desta quarta-feira, 6, foi marcado por redução relevante dos juros futuros.

Novas afirmações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que houve discussões positivas com o Irã nas últimas 24 horas, e de que o país persa se comprometeu a não desenvolver armas nucleares, se somaram a declarações positivas feitas mais cedo. Na abertura dos negócios, Trump disse que, se Teerã concordar, o confronto no Oriente Médio chegará ao fim e o Estreito de Ormuz será reaberto, o que reacendeu esperanças de que o conflito pode terminar em breve, derrubou as cotações do petróleo e, também, as curvas de juros globais e a brasileira. O barril do Brent para julho fechou cotado a US$ 101,27, em baixa de quase 8%.

Assim como na terça, as taxas intermediárias foram as que mais cederam na sessão, mostrando maior sensibilidade à oscilação dos preços do petróleo, com devolução de mais de 20 pontos-base ante os ajustes. Mesmo diante de um cenário ainda volátil, instituições como a Santander Asset mantêm visão construtiva para a curva de juros nominal em maio, devido à percepção de que há prêmios atrativos e um número ainda limitado de cortes da Selic precificado pelo mercado.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 14,148% no ajuste anterior a 14,055%. O DI para janeiro de 2029 encerrou o dia em 13,52%, vindo de 13,743% no ajuste de terça. O DI para janeiro de 2031 recuou de 13,799% a 13,605%.

Estrategista de investimentos do Santander, João Freitas afirma que o mercado amanheceu com uma pauta já definida, que determinou o alívio nos ativos domésticos e globais. “Temos visto um grande ‘esquenta, esfria’, e hoje [quarta-feira, 6] foi um dia de ‘esfria’, com redução das incertezas à frente”, disse. “Vínhamos de um estresse mais forte na semana passada que levou a curva a pedir mais prêmio e, hoje [quarta-feira, 6], com notícias que acalmaram os ânimos, houve devolução”, apontou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

Para Freitas, os acontecimentos desta quarta, no entanto, não são garantia de que a curva a termo enfrentará menos volatilidade à frente, sempre determinada pelo cenário externo, na medida em que a guerra segue para seu terceiro mês. “Tem sim a possibilidade de vivermos esse ‘esquenta, esfria’ por mais tempo. Nesta quarta o mercado parece que ficou mais confiante e propenso a tomar risco, mas ainda há uma incerteza sobre qual será a Selic terminal e o ritmo de cortes”, observou.

Na tarde desta quarta, o mercado de opções digitais de Copom indicava apenas 23% de chance de manutenção da Selic nos atuais 14,50% na reunião de junho do colegiado. Esse porcentual chegou a alcançar 40% na última segunda, diante da visão, até então, de que o conflito entre EUA e Irã seria mais duradouro. Já a probabilidade de redução de 0,25 ponto porcentual cresceu de 54% a 66% em igual comparação.

Para a equipe de gestão e estratégia da Santander Asset, que publicou sua Carta Mensal de maio, mesmo ante um cenário global e doméstico desafiadores, é apropriado manter uma visão positiva para o mercado de juros local, com preferência por ativos prefixados. De acordo com o time de economia, liderado por Eduardo Jarra, a Selic será cortada em 0,25 ponto na próxima reunião e vai terminar 2026 em 13,25%.

Segundo a instituição, os principais vetores altistas da inflação devem voltar gradualmente à normalidade, ao mesmo tempo em que haverá um reequilíbrio também gradual entre oferta e demanda do lado da atividade e, “não menos importante, a taxa de câmbio mantém apreciação relativamente aos pares, a despeito das turbulências”.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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