Folha de Guarulhos: uma presença registrada na história desde 1936

Menção publicada no Correio do Povo, em 14 de novembro de 1936, comprova que a Folha de Guarulhos já integrava o debate público da cidade naquela década

A história de uma cidade também se escreve pelas páginas de seus jornais. Antes mesmo de se tornar memória oficial, antes de ser convertida em arquivo, ata, livro ou documento público, a vida de uma comunidade pulsa nas colunas da imprensa local. É nos jornais que se registram as disputas políticas, os conflitos administrativos, os anúncios comerciais, os acontecimentos sociais, os falecimentos, as homenagens, as críticas, os embates de opinião e as preocupações de cada tempo.

É por isso que uma simples menção documental pode assumir valor histórico extraordinário. Na edição do Correio do Povo, de Guarulhos, datada de 14 de novembro de 1936, Ano III, nº 146, dirigida por Miguel Parenti, encontra-se uma referência expressa à Folha de Guarulhos. Essa referência aparece na página 5 do jornal, na coluna intitulada “Explicação Opportuna”, assinada por Miguel Parente.

O trecho é breve, mas profundamente significativo para a história da imprensa guarulhense. Nele, Miguel Parente informa ter lido, no domingo anterior, na Folha de Guarulhos, um artigo intitulado “Don Bibas”, de autoria de Mario Boaris Thomasia. A passagem demonstra que a Folha de Guarulhos não apenas existia, mas já dialogava, criticava e participava dos debates públicos do município.

Pela relevância histórica da referência, vale transcrever integralmente a coluna “Explicação Opportuna”, preservando, tanto quanto possível, a grafia original da época:


Explicação Opportuna

Tendo lido domingo p. p. na «Folha de Guarulhos», um artigo intitulado “Don Bibas” de Mario Boaris Thomasia, onde o articulista em trecho que abaixo transcrevemos, refere-se ao “Correio do Povo”, dizendo o seguinte: “Admira-me muito o «Correio do Povo» se fazer cano conductor dessas virulências, pois que elle mesmo já foi victima de tal todo-poderoso” continuando ainda diz:… “por ventura não se lembra de quando lhe lacraram as portas?”

E em vista a esses devo dizer ao sr. Thommasi que, se assim procederam foi por ordem superior, e por se achar este jornal sem o devido registro, sendo elles até muito complasivos, pois ha dois annos que o “Correio do Povo” vinha circulando sem ser registrado.

Quanto em ceder uma pagina de meu jornal, ao chamado “P. C. de abaixo” friso bem ponto o commercial de todo e qualquer jornal, porque nenhum delles vivem de “buenos aires”.

Ai está o nosso interesse que precisamos defendel-o.

MIGUEL PARENTE


Essa menção possui dupla importância. Primeiro, porque documenta que a Folha de Guarulhos já existia e circulava em Guarulhos na década de 1930. Segundo, porque revela que o jornal não era uma presença meramente formal ou periférica: ele participava ativamente do debate público local, publicando artigos de opinião, provocando respostas e integrando o ambiente político e jornalístico da cidade.

A referência feita pelo Correio do Povo permite reconstruir parte do cenário intelectual, político e institucional de Guarulhos em 1936. A cidade vivia um período de consolidação de sua vida urbana e administrativa. Os jornais locais cumpriam papel essencial na circulação de informações, na crítica aos agentes públicos, na defesa de posições políticas e na formação da opinião pública. Eram espaços de disputa, mas também de construção da memória coletiva.

A coluna “Explicação Opportuna” deve ser compreendida nesse contexto. O texto publicado no Correio do Povo não era uma notícia neutra, mas uma resposta editorial. Miguel Parente reagia ao artigo “Don Bibas”, publicado anteriormente na Folha de Guarulhos por Mario Boaris Thomasia. O conteúdo citado indica que havia uma crítica ao próprio Correio do Povo, acusado de servir como “cano conductor dessas virulências”, ao mesmo tempo em que se recordava episódio anterior no qual o jornal teria sido vítima de uma medida de fechamento ou lacração de suas portas.

Ao responder, Miguel Parente contextualiza a acusação e afirma que o episódio teria ocorrido por “ordem superior”, em razão de o jornal estar “sem o devido registro”. A discussão revela, portanto, não apenas uma divergência pessoal ou jornalística, mas um ambiente de forte tensão política, administrativa e institucional. A imprensa local, naquele momento, estava diretamente envolvida nos debates sobre poder, legalidade, liberdade de expressão, registro jornalístico e atuação dos agentes públicos.

A data provável do artigo “Don Bibas”, publicado na Folha de Guarulhos, pode ser inferida a partir da expressão “domingo p. p.”, utilizada por Miguel Parente. Considerando que a edição do Correio do Povo é de sábado, 14 de novembro de 1936, a referência aponta provavelmente para o domingo anterior, isto é, 8 de novembro de 1936. Essa data, contudo, deve ser tratada com cautela historiográfica: trata-se de uma inferência a partir da expressão utilizada no próprio documento, e não de afirmação absoluta, salvo se localizada a edição correspondente da Folha de Guarulhos.

Ainda assim, o dado central permanece firme: em novembro de 1936, o Correio do Povo reconhecia expressamente a existência da Folha de Guarulhos e dialogava publicamente com conteúdo nela publicado. Essa é uma evidência documental relevante, pois demonstra que o nome Folha de Guarulhos já integrava a imprensa local naquela década.

Mais do que uma simples citação, o registro mostra que a imprensa guarulhense era plural, ativa e combativa. Os jornais não se limitavam a publicar anúncios ou notas sociais. Eles discutiam os rumos da cidade, questionavam autoridades, respondiam a críticas, expunham conflitos e registravam as tensões de seu tempo. A linguagem forte, típica do jornalismo político da época, evidencia que a imprensa era palco de embates intensos, mas também instrumento de participação pública.

Ao rememorar essa menção, a Folha de Guarulhos reafirma sua ligação com uma tradição jornalística que atravessa gerações. A descoberta documental não deve ser vista apenas como uma curiosidade de arquivo, mas como parte de uma história maior: a história de uma cidade que se reconhece por meio de seus registros, de seus jornais e de suas vozes públicas.

A Folha de Guarulhos, mencionada em 1936, já estava inserida no debate da cidade. Seu nome circulava entre leitores, articulistas, jornalistas e agentes políticos. Sua presença provocava respostas. Suas páginas eram lidas, comentadas e contestadas por outros periódicos. Isso demonstra que a Folha fazia parte da vida pública guarulhense em um momento decisivo da formação histórica do município.

Resgatar esse documento é também resgatar a importância da imprensa local como guardiã da memória. Sem jornais, muitas passagens da história das cidades desaparecem. Sem registros impressos, personagens, conflitos e debates ficam perdidos no tempo. Cada edição antiga, cada coluna, cada anúncio e cada nota ajudam a recompor o cotidiano de uma comunidade.

Por isso, a menção feita pelo Correio do Povo, em 14 de novembro de 1936, deve ser compreendida como uma peça documental de grande valor para a história da imprensa de Guarulhos. Ela prova que a Folha de Guarulhos já existia naquela década e que participava dos debates públicos de seu tempo.

A tradição de um jornal não se mede apenas por sua presença atual, mas pela profundidade de suas raízes. E essa raiz, agora iluminada pelo documento histórico, mostra que a Folha de Guarulhos pertence à memória jornalística da cidade. Uma memória feita de papel, tinta, opinião, coragem, conflito e compromisso com Guarulhos.

Ao revisitar essa página de 1936, a Folha de Guarulhos não olha apenas para o passado. Ela reafirma, no presente, seu compromisso com a cidade, com a verdade histórica, com o debate público e com a preservação da identidade guarulhense. Porque um jornal que conhece sua história compreende melhor sua missão: registrar o tempo, fiscalizar o poder, dar voz à sociedade e manter viva a memória de seu povo.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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