Após as três perdas que sucederam a máxima história da última terça-feira, 14, então aos 198,6 mil pontos no fechamento, o Ibovespa sustentou os 196 mil pontos nesta abertura de semana, amparado pelas ações de Petrobras (ON +1,83%, PN +1,73%), que têm sido o fiel da balança nos dias de correção do petróleo, como hoje. Dessa forma, acompanharam, ainda que à distância, a alta da commodity em Londres e Nova York, acima de 5% no encerramento da sessão desta segunda-feira.
Depois dos recentes sinais de distensão, a recuperação da commodity e dos papéis correlacionados derivaram da retomada da animosidade entre Estados Unidos e Irã. No fim de semana, a apreensão de cargueiro do Irã no Golfo de Omã pelos EUA indicou que a estabilização geopolítica está longe de ser alcançada, apesar da expectativa para novas negociações entre as partes, agora perto do fim do prazo do cessar-fogo.
“Há dias o mercado vem oscilando em torno do cessar-fogo, em especial com relação à reabertura ou não do Estreito de Ormuz, um fator com efeito direto sobre a oferta de petróleo, as expectativas de inflação e o potencial para corte de juros. O petróleo tem ditado o rumo”, aponta Bruna Centeno, economista e advisor da Blue3 Investimentos, referindo-se também ao peso de Petrobras na composição do Ibovespa.
Assim, na máxima do dia, o índice da B3 foi aos 196.724,17 pontos, em alta de 0,51% no início da tarde, e encerrou a sessão com ganho de 0,20%, aos 196.132,06 pontos, enquanto em Nova York, os principais índices de ações mostraram perdas entre 0,01% (Dow Jones) e 0,26% (Nasdaq) no fechamento do dia. No mês, o Ibovespa sobe 4,63%, colocando o ganho do ano a 21,73%. O giro financeiro desta segunda-feira ficou em R$ 22,7 bilhões.
Na B3, à exceção de Petrobras, as ações de primeira linha em geral tiveram desempenho negativo, com destaque para Vale ON, em baixa de 1,14% no fechamento – e que chegou a se aproximar de 2% no pior momento, na abertura. Entre os maiores bancos, as perdas também foram à casa de 1% em Bradesco ON e PN, no encerramento. Na ponta vencedora do índice, Sabesp (+4,36%), Brava (+4,35%) e Vamos (+3,63%). No lado oposto, C&A (-2,19%), Lojas Renner (-1,81%) e Totvs (-1,61%).
O Barclays rebaixou nesta segunda-feira a recomendação da Vale de overweight (equivalente à indicação de compra) para equal-weight (semelhante à neutra). Ainda assim, o preço-alvo do American Depositary Receipt (ADR) passou de US$ 16,50 para US$ 17,00. No acumulado do ano, o ADR da Vale avança 36%, enquanto os preços do minério de ferro permaneceram relativamente estáveis. Para os analistas do Barclays, essa divergência deixou o valuation mais exigente.
No quadro mais amplo, as declarações contraditórias entre as lideranças políticas de EUA e Irã contribuíram para reforçar o ceticismo e reduzir o apetite por ativos de risco, como ações, do meio para o fim da tarde, apesar de o presidente americano, Donald Trump, ter tentado sustentar o otimismo de que as negociações estão avançando “relativamente rápido” – algo que não tem sido replicado na retórica do Irã.
Em outro desdobramento do dia, Trump afirmou que é “altamente improvável” que estenda o cessar-fogo de duas semanas com o Irã, caso um acordo não seja alcançado antes do término do prazo, em entrevista por telefone à Bloomberg. Segundo ele, o Estreito de Ormuz continuará bloqueado até que um acordo seja finalizado, e o vice-presidente dos EUA, JD Vance, pode partir ainda hoje para retomar as negociações no Paquistão, que, de acordo com Trump, devem começar na terça-feira.
Ontem, as Forças Armadas do Irã prometeram uma “resposta rápida” à apreensão, pelos Estados Unidos, de um navio-tanque de bandeira iraniana no Golfo de Omã, informou a mídia estatal. O quartel-general militar disse que o ataque e a subsequente abordagem do navio pelas forças americanas constituem uma “violação do cessar-fogo” e denunciou o ato como “pirataria”. Mais cedo no domingo, os EUA tinham confirmado disparos contra o navio e que o apreenderam porque havia cruzado a linha de bloqueio, após ignorar múltiplos avisos.
Foi a primeira interceptação desse tipo desde o início do bloqueio aos portos iranianos, e a notícia lançou incerteza quanto à efetividade de nova rodada de negociações, no Paquistão, neste começo de semana. “Estamos programados para ter conversas”, disse hoje o presidente dos EUA, Donald Trump, ao jornal New York Post acrescentando que estaria disposto a se encontrar com líderes iranianos se um avanço for alcançado. “Presumo que neste ponto ninguém está fazendo jogos.”
Mas, também nesta manhã, veio a notícia de que o Irã estaria reavaliando participar de conversas com os EUA, com a alegação de que a Casa Branca não está levando a sério as negociações. “Mercado trabalha ainda com cautela sobre essa questão, que não está finalizada e continua a envolver muita volatilidade”, resume Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, destacando que a proximidade do feriado no Brasil justificou, também, uma liquidez menor no câmbio e na Bolsa.
Dólar
O dólar manteve o comportamento próximo da estabilidade ao longo desta segunda, 20, encerrando o pregão em leve recuo, a R$ 4,9742, menor valor de fechamento em dois anos. O ambiente de volume de negócios mais fraco devido à emenda de feriado no Brasil contribuiu para o range reduzido das operações nesta segunda-feira.
No exterior, a retomada das tensões no Oriente Médio, com Trump reiterando o bloqueio naval americano no Estreito de Ormuz à tarde, reforçou a cautela do mercado global. A dinâmica foi mais uma chancela para o avanço de mais de 5% no barril de petróleo, cotado a US$ 95, acompanhando a volta das restrições do Irã sobre Ormuz no final de semana. No entanto, a disparada nos preços favorece os termos de troca de países exportadores da commodity, como o Brasil.
“O estresse relacionado a Ormuz tem dado uma volatilidade pequena ao real na comparação com outros momentos. Significa que o real está bem resiliente a todos esses acontecimentos e reforça a tendência positiva”, avalia o head da mesa de câmbio e internacional da Mirae Asset, Jonathan Joo Lee. Ainda segundo ele, o movimento favorece as ações das petrolíferas na bolsa brasileira, como Petrobras e Prio.
Com mínima de R$ 4,9711 e máxima de R$ 4,9888, o dólar à vista terminou o dia em queda de 0,18%, a R$ 4,9742, menor valor de fechamento desde 25 de março de 2024, quando a divisa fechou cotada a R$ 4,9734. A moeda acumula desvalorização de 3,95% no mês e de 9,38% no ano em relação ao real. Às 17h22, o dólar futuro caia 0,11%, cotado a R$ 4,9845.
Além disso, a expectativa de um diferencial de juros ainda forte, com o ciclo de queda da Selic menor que o esperado, contribui para o real se beneficiar ante o dólar, segundo o diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, Marco Mecchi.
O boletim Focus divulgado hoje mais cedo indicou piora da desancoragem das expectativas de inflação. A mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 subiu de 4,71% para 4,80%, acima do teto da meta de inflação. As expectativas para 2027 também avançaram, para 3,99%, enquanto as de 2028 e de 2029 permaneceram em 3,60% e 3,50%, pela ordem.
“As expectativas para 2026 subiram rapidamente e as de 2027 e as de 2028 já estão mais próximas de 4% do que de 3%. O choque do petróleo e a desancoragem das expectativas são pontos que incomodam muito o Banco Central”, observa Mecchi.
Ainda que o choque de oferta seja um incômodo para a inflação, por um lado, o real tem demonstrado resiliência e valorização frente ao dólar global (DXY) nos últimos 45 dias, na avaliação da BGC Liquidez. A expectativa é de que, no curto prazo, a taxa de câmbio se mantenha estável entre R$ 4,97 e R$ 4,98, com bandas de flutuação variando de R$ 4,90 a R$ 5,05.
Juros
Os juros futuros de vencimentos curtos e intermediários exibiram alta modesta no pregão desta segunda-feira, 20, sob um jogo de forças entre o avanço das cotações do petróleo e o alívio do dólar, que passou a recuar levemente no meio da tarde. Diante da liquidez mais escassa, às vésperas do feriado de Tiradentes, as taxas reagiram à escalada do confronto entre Estados Unidos e Irã no fim de semana e, ainda, a versões conflitantes de cada um dos países sobre a continuidade das negociações de paz, a dois dias do fim do cessar-fogo em vigor.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,882% no ajuste anterior a 13,91%, mínima intradia. O DI para janeiro de 2029 oscilou a 13,15%, vindo de 13,141% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2031 anotou tímida queda a 13,24%, também em mínima intradia, vindo de 13,294% no ajuste precedente.
Após o aumento da aversão ao risco devido à volta do bloqueio iraniano ao fluxo de navegação no Estreito de Ormuz, agentes monitoraram com ceticismo declarações do presidente Donald Trump de que os EUA estão vencendo a guerra e de que um acordo com Teerã deve ser fechado com rapidez. Por outro lado, uma fonte do governo do Paquistão afirmou à Reuters que o país está confiante de que o Irã vai comparecer a uma nova rodada de diálogo com negociadores americanos.
As conversas devem ocorrer em Islamabad esta semana, mas nenhuma autoridade iraniana confirmou oficialmente até agora que o país participará das tratativas. Já Trump informou em entrevista nesta segunda-feira que uma delegação americana está a caminho do Paquistão. Com dúvidas sobre os próximos desdobramentos e o impasse sobre a situação no estreito – que, de acordo com o Irã, não será liberado até que os EUA retirem o bloqueio naval sobre o país persa -, os contratos futuros de petróleo subiram quase 6% hoje, pressionando as curvas de juros globais e o mercado de renda fixa brasileiro.
Economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel afirma que, na ausência de novidades relevantes no cenário doméstico, o ambiente externo segue como principal vetor sobre a curva de juros futuros local. O bom comportamento do câmbio moderou os prêmios nos trechos mais longos e reduziu a alta dos demais vértices, observa Sichel, mas os vencimentos curtos e médios seguiram reagindo ao noticiário da guerra, ao mesmo tempo em que perspectivas para o ciclo de corte de juros continuam em ajuste.
“O mercado está menos sensível aos ‘headlines’ de autoridades, sejam elas americanas ou iranianas. O mais importante é entender se e quando vai acontecer uma nova rodada de negociações no Paquistão”, apontou o economista. “A notícia de que o Paquistão está confiante sobre a nova rodada dá sustentação à ideia de que essa crise pode ser superada relativamente rápido”, avaliou.
Para a Macquarie Capital, a atual trégua entre EUA e Irã, que se encerra nesta quarta-feira, pode ser estendida por mais uma ou duas semanas. Um acordo de paz completo, no entanto, “levará muito mais tempo”, afirma a instituição em relatório, com base em precedentes históricos de outros processos de negociação. “Enquanto isso, os preços do petróleo bruto permanecerão altos”, dizem os estrategistas globais de câmbio e juros da casa.
Por aqui, o boletim Focus trouxe nova rodada de deterioração das expectativas inflacionárias e revisão para cima da taxa Selic projetada para o final do ano. A estimativa para a alta do IPCA em 2026 avançou de 4,71% a 4,80%, se distanciando mais, portanto, do teto da meta, de 4,50%. A previsão para 2027 passou de 3,91% a 3,99%, e as projeções para 2028 e 2029 permaneceram em 3,60% e 3,50%, pela ordem. Já a mediana para o juro ao fim de 2026 aumentou a 13%, de 12,5% na semana anterior.
Para Sichel, da Porto Asset, o Focus pode ter contribuído para a abertura das taxas futuras mais curtas hoje, mas a maior influência sobre a curva ainda é o petróleo mais elevado. Levando em conta a inflação mais pressionada, o Banco Central precisa ser mais cauteloso na condução da política monetária, diz ele. No cenário da gestora, a Selic encerrará o ano em 13,5%.


