“Que jornada! Estamos bem, com os quatro tripulantes saudáveis”, disse Reid Wiseman, comandante da Artemis 2, ontem, após a bem-sucedida amerissagem (pouso na água). Passados 53 anos da missão Apollo 17, a última que levou o homem à Lua nas décadas de 1960 e 1970, a Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa) concluiu ontem com sucesso a missão Artemis 2, que transportou seres humanos ao ponto mais distante da Terra já alcançado por alguém – e realizou o sobrevoo mais próximo da superfície lunar da história.
Às 21h07 (horário de Brasília), a cápsula da espaçonave Orion realizou a amerissagem no Oceano Pacífico, próximo da costa do Estado da Califórnia, trazendo de volta ao planeta o comandante Wiseman, o piloto Victor Glover e os especialistas Christina Koch e Jeremy Hansen. A missão durou exatos 9 dias, 1 hora, 31 minutos e 35 segundos.
Além de ter levado humanos a 406.778 km da superfície terrestre, superando o recorde anterior, de 400.171 km, a missão foi a primeira integrada por uma mulher (Koch), um homem negro (Glover) e uma pessoa que não nasceu nos EUA (o canadense Hansen). A expectativa era que ainda no fim da noite de ontem a tripulação fosse levada para o porta-aviões USS Murtha, onde passaria por exames médicos, antes de seguir para Houston.
MOMENTOS MARCANTES
A missão Artemis 2 foi também marcada pela transmissão de imagens, vídeos e dados científicos por meio do Sistema de Comunicações Ópticas Orion Artemis 2 (O2O), que utiliza tecnologia a laser. O sistema, financiado pelo programa SCaN da Nasa, permite transmissões de alta velocidade entre a nave e os centros de controle na Terra.
Testada desde 2021, a tecnologia óptica pode ser até 100 vezes mais rápida que a comunicação por rádio. Além de registros visuais, o sistema envia dados científicos, planos de voo e informações operacionais a velocidades de até 260 megabits por segundo.
Durante o percurso de retorno, a tripulação realizou uma ligação via rádio com colegas que estão a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), a centenas de milhares de quilômetros de distância. Foi o primeiro contato registrado entre uma nave em missão lunar e a estação orbital em toda a história.
REENTRADA
A reentrada na atmosfera terrestre era considerada um dos momentos mais críticos da missão, comparável apenas ao lançamento em termos de riscos. A cápsula da Orion se separou do módulo de serviço e entrou na atmosfera terrestre a uma velocidade de 40 mil km/h, enfrentando temperaturas extremas que podem chegar a 2.760 °C. Por isso, a nave era revestida com um escudo térmico capaz de resistir a altas temperaturas.
Foi justamente um problema no escudo térmico (subestimado pela Nasa) que levou à explosão do ônibus espacial Columbia, em 2003, no momento da reentrada, matando os seus sete tripulantes. Por causa do acidente, a Nasa acabou encerrando o programa dos ônibus espaciais e implementou mudanças rigorosas em seus protocolos de segurança. Depois disso, aprimorar essa cobertura térmica era prioridade absoluta para os engenheiros da Nasa.
A escolha pelo pouso na água não foi aleatória. Ele permite uma dissipação mais segura da energia do impacto e facilita operações de resgate, já que equipes podem se deslocar rapidamente até o ponto de pouso previsto. A amerissagem é um método adotado em diversas missões espaciais tripuladas e não tripuladas ao longo da história, especialmente no retorno de cápsulas que não utilizam sistemas de pouso terrestre.
Mesmo assim, o programa Artemis já sofreu vários atrasos nos últimos anos. O primeiro voo de teste foi marcado por vazamentos de combustível de hidrogênio e problemas no fluxo de hélio antes do lançamento sem tripulação em 2022. Os mesmos problemas atingiram o foguete Space Launch System (SLS), usado na missão, na plataforma de lançamento do Centro Espacial Kennedy da Nasa no início de fevereiro. A falha obrigou a Nasa a adiar o lançamento.
NOVA CORRIDA ESPACIAL
O sucesso da Artemis 2 também significa que os Estados Unidos largaram na frente na nova corrida espacial para a (re)conquista da Lua. Se, no passado, o principal adversário dos EUA era a extinta União Soviética, agora China e Índia estão na disputa. Os programas lunares já anunciados pelos dois países asiáticos (e também pelos EUA) refletem estratégias nacionais de longo prazo, objetivos científicos e econômicos, além de interesses geopolíticos. Enquanto os americanos prometem um pouso na Lua em 2028, a China diz que vai levar seus taikonautas (como são chamados os astronautas chineses) ao satélite em 2030, enquanto a Índia se programa para uma alunissagem tripulada em 2040.
Está em jogo a soberania geopolítica e tecnológica, além de interesses econômicos. Enquanto Marte ainda não é um destino viável, a “reconquista” da Lua já é o símbolo dessa nova corrida, assim como foi há mais de meio século.


