Dólar cai a R$ 5,06, ao menor nível em 2 anos, de olho em diálogo entre Israel e Líbano

O dólar aprofundou o ritmo de queda ao longo da tarde, alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, e encerrou a sessão desta quinta-feira, 9, no menor nível em exatos dois anos. Após uma manhã marcada por preocupações com a fragilidade do acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, sugiram ao longo da segunda etapa de negócios sinais positivos de arrefecimento das tensões no Oriente Médio, o que reduziu o fôlego dos preços do petróleo e abriu espaço para alívio dos prêmios de risco.

Após dois dias com desempenho inferior ao de pares, o real figurou nesta quinta no grupo das moedas globais mais líquidas com maiores ganhos em relação ao dólar. Operadores relatam entrada de recursos estrangeiros para a bolsa doméstica. O Ibovespa atingiu a marca histórica de 195 mil pontos, impulsionado por ganhos de mais de 2% das ações da Petrobras.

Com mínima de R$ 5,0588, o dólar à vista terminou em baixa de 0,77%, a R$ 5,0634 – menor valor desde 9 de abril de 2024.

Depois de alta de 0,87% em março, a divisa já recua 2,22% nos primeiros seis pregões de abril. No ano, a moeda americana acumula agora desvalorização de 7,75% em relação ao real.

Pouco depois das 12 horas, circulou a informação de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria solicitado ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que reduzisse os ataques ao Líbano para facilitar o diálogo com o Irã. No início da tarde, Netanyahu informou que instruiu o governo a iniciar tratativas com o Líbano. O aceno de Israel desarma parte dos temores de malogro das negociações entre EUA e Irã que surgiram na quarta tarde, após autoridades iranianas fecharem novamente o Estreito de Ormuz, pretextando que ataques israelenses ao Líbano violavam as condições para o cessar-fogo.

Em mensagem de texto divulgada nesta quinta, o líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, subiu o tom ao afirmar que exigirá compensações de EUA e Israel por danos em território iraniano e que “a gestão do Estreito será levada a uma nova fase”. Trump, por sua vez, se disse “muito otimista” em torno de um acordo de paz, ponderando que os líderes iranianos “falam de maneira muito diferente” em encontros privados e com a imprensa.

O diretor de Investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, Marco Antonio Mecchi, ressalta que o real se comportou muito bem ao longo de março e, com o alívio recente nas tensões geopolíticas, voltou a ser negociado abaixo dos níveis vistos antes do início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro.

“O mercado está dominado pelo cenário externo. Não há notícia local fazendo preço. Se não houver uma retomada do conflito, o dólar pode buscar os R$ 5,00 no curto prazo. O Brasil é exportador de petróleo e temos um diferencial de juros muito grande”, afirma o diretor da Azimut, alertando, contudo, que parecem haver entraves relevantes a um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã.

O gestor argumenta que as condições apresentadas pelos iranianos se contrapõem ao 15 pontos para a paz elencados por Trump em março. Os Estados Unidos pleiteavam a abertura total do Estreito de Ormuz, ao passo que Teerã se mostra disposto a controlar a passagem por onde é escoada 20% da produção global de petróleo. O Irã insiste em continuar a enriquecer urânio, algo não tolerado por Washington.

“A melhora do mercado com a possibilidade de um acordo é justificável, até por conta da retórica anterior de Trump, que falava em acabar com uma civilização. Mas é difícil imaginar qual vai ser o ponto de encontro entre as intenções de EUA e Irã”, alerta o diretor de investimentos da Azimut.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY recuou e voltou a ser negociado abaixo da linha dos 99,000 pontos, com mínima aos 98,625 pontos. Dados dos EUA divulgados nesta quinta mostraram perda de fôlego de atividade e inflação ainda acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

A leitura final do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no quarto trimestre mostrou taxa anualizada de 0,5%, abaixo da estimativa de analistas, de 0,7%. A atividade pode ter sido abalada, segundo analistas, pelo efeito da paralisação parcial (shutdown) da máquina pública. Já o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) dos EUA e seu núcleo vieram em linha com as expectativas, embora mostrem inflação anual perto de 3%.

Bolsa

A expectativa de que Israel venha a interromper também a ofensiva no Líbano, reforçando o cessar-fogo de Estados Unidos com o Irã, deu fôlego aos ativos globais ao longo da tarde, mantendo o Ibovespa pelo segundo dia em renovação de recordes, tanto no intradia como no fechamento, em ambos os casos pela primeira vez, nesta quinta-feira, na casa dos 195 mil pontos. Saindo de mínima na abertura aos 192.206,22 pontos, o índice da B3 tocou máxima na sessão aos 195.513,91 pontos e encerrou ainda em alta de 1,52%, aos 195.129,25 pontos, no campo positivo pela oitava sessão e em recorde de fechamento pela 15ª vez no ano.

No agregado das seis primeiras sessões de abril, avança 4,09% no mês, colocando o ganho do ano a 21,10%. Na semana, a alta é de 3,76%. O giro financeiro desta quinta-feira se manteve reforçado como na quarta, nesta quinta a R$ 37,2 bilhões.

Em Nova York, os três índices de referência para ações também operaram em alta, mas com variações menos expressivas do que a vista na B3 – no fechamento, Dow Jones +0,58%, S&P 500 +0,62%, Nasdaq +0,83%. Tanto os rendimentos dos Treasuries como a curva do DI cederam terreno na sessão, assim como o dólar frente ao real.

Neste começo de abril, o dólar já acumula perda de 2,22%, enquanto o Ibovespa sobe pouco mais de 4%. Dessa forma, em novo nível nominal recorde para o índice da B3, na moeda americana o Ibovespa chega agora a 38.537,19 pontos. Com a moeda norte-americana então em alta de 0,87% no acumulado de março, o Ibovespa em dólar tinha fechado o mês passado a 36.199,32 pontos.

Em dólar, no fim de fevereiro, estava em 36.771,90 pontos, com a moeda americana, então, ainda em baixa no mês. No fechamento de janeiro, o Ibovespa havia chegado a 34.561,30 pontos, refletindo também a queda de 4,40% acumulada pela moeda americana frente ao real no primeiro mês do ano. Mesmo com a apreciação em moeda forte, a percepção é de que ainda há precificação favorável às ações brasileiras, e que a demanda por compras continua a ser sustentada pelo fluxo estrangeiro.

Dessa forma, uma “proxy” do Ibovespa muito associada à demanda estrangeira, o EWZ, principal fundo ETF de Brasil em Nova York, subia mais de 2%, andando à frente do desempenho do Ibovespa no período da tarde, assim como os ADRs de Petrobras em relação às respectivas ações da estatal na B3, o que mostra a visão positiva do estrangeiro quanto ao mercado de ações brasileiro, ainda percebido como oportunidade, observa Bruno Takeo, estrategista da Potenza. Na visão de fora, explica Takeo, o Brasil está barato porque a comparação é também com as empresas pares, do exterior.

No quadro mais amplo, a confiança dos investidores foi reforçada nesta quinta-feira pela notícia de que o presidente dos Estados Unidos pediu a Israel a suspensão de ataques ao Líbano para que seja consolidado o cessar-fogo com o Irã. Em outro desdobramento favorável, o Irã teria se comprometido a permitir a passagem de 15 navios por dia pelo Estreito de Ormuz. E, ainda no começo da tarde, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que negociações diretas de cessar-fogo com o Líbano devem começar o mais rápido possível. Por outro lado, o portal Axios reportou, com base em fonte, que mesmo com negociações, um cessar-fogo de Israel no Líbano não deve ser efetivado.

Na B3, com os investidores mais inclinados a pensar que uma trégua tende a se consolidar, abrindo caminho para alguma paz, a recuperação das ações de primeira linha foi generalizada, à exceção, no fechamento, de Vale ON, em baixa de 1,05%. Entre os maiores bancos, os ganhos do dia chegaram a 1,71% em Itaú PN, principal papel do setor, e a 1,81% em Santander Unit. E Petrobras, que na quarta havia destoado das demais blue chips, nesta quinta acompanhou a recuperação do petróleo, com a ON em alta de 2,93% e a PN, de 2,77%, acentuando ganhos perto do fechamento.

Na ponta vencedora do Ibovespa, Usiminas (+6,08%), Auren (+5,06%) e C&A (também +5,06%). No lado oposto, Totvs (-3,20%), MBRF (-2,83%) e Natura (-1,45%).

“Cessar-fogo é frágil, mas a situação atual é melhor apesar de se estar ainda muito longe de um final para o conflito, que pode persistir por muito tempo”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. Ele se refere a mais do que prováveis “solavancos” pela frente, tendo em vista que as tensões desta quinta são o resultado de desdobramentos geopolíticos que remontam a 2023, e que vêm se desenvolvendo em fases ou etapas desde os ataques do Hamas no sul de Israel, em outubro daquele ano.

Taxas de juros

Os juros futuros encerraram o pregão desta quinta-feira, 9, em queda moderada, após terem oscilado entre altas e baixas pela manhã, na esteira do aumento do otimismo na segunda etapa da sessão com notícias sobre tratativas entre Israel e Líbano.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,952% no ajuste anterior a 13,92%. O DI para janeiro de 2029 cedeu de 13,357% do ajuste para 13,305%. O DI para janeiro de 2031 terminou a sessão em 13,465%, de 13,503% no ajuste precedente.

A virada para o terreno negativo dos DIs começou perto de 12h20, quando a NBC noticiou que Trump fez um apelo a Netanyahu para reduzir os ataques de Israel no Líbano em uma ligação telefônica na quarta-feira.

Economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez aponta que há também grande expectativa sobre o fim de semana, quando o vice-presidente americano, JD Vance, liderará negociações do lado de Washington em reunião com representantes iranianos em Islamabad, no Paquistão.

“No fim das contas os Treasuries também estão andando bem e por aqui refletimos o bom humor mundial, e também o excesso de ‘gordura’ de política monetária que temos para queimar”, diz Sanchez, para quem a Selic, atualmente em 14,75%, encerrará 2026 em 11%. A mediana de estimativas do boletim Focus projeta a taxa em 12,50% ao final do ano, enquanto a precificação da curva de juros indica cerca de 13,50%.

“Ainda é um ‘call’ acanhado”, avalia o economista. A premissa para seu cenário-base é a curva futura dos preços do petróleo, que indica uma queda acentuada no segundo semestre. “Isso vai fazer com o que os modelos do Banco Central coloquem as expectativas inflacionárias mais para baixo no horizonte relevante”, afirmou.

O Goldman Sachs diminuiu sua previsão para os preços do petróleo no segundo trimestre após o cessar-fogo temporário entre EUA e Irã, citando menor prêmio de risco no curto prazo. A instituição projeta que o Brent, referência para a Petrobras, ficará em US$ 90 o barril, e o WTI em US$ 87 o barril no período, de US$ 99 e US$ 91 antes, pela ordem. O Goldman pondera que os riscos seguem inclinados para cima, diante da possibilidade de novas interrupções na oferta.

Voltando aos poucos a ofertar lotes maiores, o Tesouro Nacional vendeu nesta quinta todas as 12 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN) colocadas no mercado, assim como todo o volume de 3 milhões de Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F). “Foi um leilão dentro do esperado, o que conversa com o fechamento da curva”, avalia Sanchez, da Ativa.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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