O dólar exibiu leve queda no mercado local e encerrou esta sexta-feira, 27, abaixo de R$ 5,25, na contramão do comportamento da moeda americana no exterior. O dia foi marcado por tombo dos ativos de risco e nova rodada de alta dos preços do petróleo, em meio a incertezas sobre o rumo do conflito no Oriente Médio. Operadores atribuíram o fôlego do real à provável internalização de recursos por exportadores e a ajustes técnicos com a proximidade do fim do mês, marcado por rolagem de posições no segmento futuro.
Pela manhã, o dólar ensaiou um movimento de alta, correndo até a máxima de R$ 5,2799, mas trocou de sinal no início da tarde, passando a rodar entre R$ 5,22 e 5,23, com mínima de R$ 5,2190. Nas últimas horas de negócios, com uma piora da aversão ao risco, o dólar arrefeceu bastante as perdas, passando a orbitar os R$ 5,25. Referência do comportamento da moeda americana em relação a seis divisas fortes, o índice DXY superou os 100,000 pontos, com máxima aos 100,206 pontos.
No fim da sessão, o dólar à vista era negociado a R$ 5,2417, recuo de 0,28%. Apesar de encerrar a semana em baixa de 1,27%, a moeda norte-americana ainda acumula alta de 2,10% em relação ao real, que apresentou no período perdas inferiores a de seus principais pares, à exceção do peso colombiano. Pesos mexicano e chileno amargaram queda de mais de 5%, enquanto o rand sul-africano caiu quase 8% frente ao dólar no mês.
O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, destaca que a formação da taxa de câmbio se dá em meio a forças opostas. Por um lado, a aversão global ao risco, alimentada por temores de um choque ainda mais forte nos preços de energia, leva a uma busca pela moeda americana e abala divisas emergentes. De outro, a perspectiva de melhora de termos de troca, que resulta em fluxo maior de recursos pelo canal comercial, tende a impulsionar moedas ligadas ao petróleo, caso do real.
“É difícil prever qual fator vai prevalecer no dia. O real tem até se comportado bem com o aumento do petróleo. O país é exportador da commodity e há a percepção de que os preços mais altos podem trazer um efeito positivo para a economia no longo prazo”, afirma Lima. “Em todo caso, há um aumento do prêmio de risco que no curto prazo acabou invertendo a tendência de apreciação do real que vimos até o fim de fevereiro”.
No início da noite da quinta-feira, com o mercado spot de câmbio já fechado, houve certo alívio com a decisão de Donald Trump de postergar eventual ataque a usinas iranianas de energia por 10 dias, até 6 de abril. O presidente dos EUA reiterou que as negociações com o Irã continuavam e revelou que haveria uma reunião entre as partes nesta sexta à noite para tratar de um cessar-fogo.
Segundo informações do The Wall Street Journal, autoridades iranianas não solicitaram pausa em ataques nem apresentaram resposta ao plano de 15 pontos de Trump. À tarde, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que participou de encontro do G7 na França, disse que espera uma resposta do Irã entre esta sexta ou sábado.
Sem sinais concretos de que um cessar-fogo está próximo, as cotações do petróleo voltaram a subir. O contrato do WTI para maio fechou em alta de 3,33%, a US$ 94,19 o barril. Já o Brent para junho – referência de preços para o Brasil – avançou 3,37%, a US$ 105,33 o barril, acumulando valorização de mais de 50% em março. No ano, a alta já supera 80%.
Lima, da Western Asset, ressalta que, mesmo em caso de encerramento do conflito no Oriente Médio, a tendência é que o petróleo não volte aos níveis pré-guerra, já que parte da produção foi comprometida em ataques mútuos. Além disso, países tendem a repor estoques de petróleo e até aumentá-los em relação aos patamares históricos. “E os preços ainda vão embutir um prêmio de risco maior por conta da insegurança geopolítica”, afirma.
Por aqui, após duas intervenções no mercado de câmbio nesta semana, o Banco Central não deu às caras. Operadores afirmam que houve uma acomodação tanto do casado (diferença entre dólar à vista e futuro) quanto do cupom cambial (juro em dólar) no curto prazo. Na última terça-feira, 24, o BC surpreendeu o mercado com oferta de US$ 1 bilhão em linha (venda de dólar com compromisso de recompra). Na quinta, a autoridade monetária repetiu a dose, com nova oferta de US$ 1 bilhão em linha.
Operadores atribuíram a intervenção do BC à provável escassez de divisa no segmento spot e a zeragem de operações em cupom cambial por parte de bancos, algo típico às vésperas do fechamento dos resultados trimestrais. “Aparentemente, estamos com escassez de linhas externas. Os bancos lá fora podem ter feito algum movimento de ‘clean up’ das carteiras”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.
Bolsa
A recuperação observada nas três primeiras sessões da semana na B3 compensou o viés negativo nas duas últimas do intervalo, o que assegurou avanço de 3,03% para o principal índice de ações no Brasil em relação ao fechamento da sexta-feira passada. Dessa forma, o Ibovespa agregou o primeiro ganho após uma sequência de quatro semanas no vermelho, que coincidiu em grande parte com a névoa da guerra que se impôs em 28 de fevereiro, desde o ataque inicial de EUA e Israel ao Irã. A partir de então, os preços globais do petróleo se mantiveram pressionados, lançando dúvidas quanto ao escopo para futuros cortes nos juros de referência em todo o mundo, diante do efeito do conflito sobre a inflação.
Nesta sexta-feira, 27, o índice da B3 oscilou dos 180.976,16 até os 183.350,70 pontos, tendo saído de abertura aos 182.732,67 pontos. Ao fim, marcava 181.556,76 pontos, em baixa de 0,64% nesta sexta-feira. O giro financeiro foi de R$ 26,3 bilhões. Mesmo com a recuperação de 3% na semana, a perda acumulada pelo Ibovespa no mês ainda é de 3,83%, com ganho no ano a 12,68%.
Após ter lutado por leve alta na sessão, e pelo nível de 183 mil pontos até o início da tarde, o Ibovespa piorou ao longo da etapa vespertina, correlacionado à deterioração observada em Nova York. Por lá, no fechamento, Dow Jones -1,73%, S&P 500 -1,67%, Nasdaq -2,15%. Assim, a agenda doméstica segue em segundo plano, sem as decisões sobre os subsídios ao diesel da tarde desta sexta produzir efeito nos preços das ações.
O conflito no Oriente Médio passou a figurar como novo vetor de risco para o cenário macroeconômico dos Estados Unidos ao adicionar incertezas tanto para a inflação quanto para o crescimento, afirmou hoje a presidente do Federal Reserve (Fed) da Filadélfia, Anna Paulson. Ela enfatizou, durante evento, que choques geopolíticos podem afetar preços de energia e as condições financeiras globais.
Nesta sexta-feira, em Londres, o Brent para junho subiu 3,37% (US$ 3,43), a US$ 105,32 por barril, mas, na semana, recuou 6,12%. Em dia de retomada da correção no Ibovespa, Petrobras (ON +1,74%, PN +2,89%) foi – à exceção também de Vale (ON +0,11%) no fechamento – a principal empresa a se descolar do sinal negativo. Destaque, mais uma vez, para o recuo dos bancos, com perdas que chegaram a 1,73% (Banco do Brasil ON) e a 3,03% (BTG Unit) no fechamento.
Na ponta ganhadora do índice, além de ações do setor de energia como Petrobras, Prio (+3,00%) e PetroReconcavo (+2,11%), destaque também para MBRF (+6,07%) e Assai (+5,85%). No lado oposto, Braskem (-10,84%), Cyrela (ON -5,54%, PN -6,56%), MRV (-4,61%) e Cury (-4,56%).
“Sem nenhuma lógica que seja possível compreender até o momento, o conflito vem dando sinais de que pode escalar fortemente”, diz Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. Segundo ele, inicialmente, os sinais eram de que a ação militar seria curta, tendo em vista os efeitos deletérios para a economia como um todo e, sobretudo, a rápida corrosão de capital político em um ano eleitoral decisivo para o presidente dos EUA, Donald Trump: se perder o controle da Câmara e do Senado, chegaria aos dois últimos anos de mandato muito enfraquecido.
“A imprevisibilidade é absoluta”, acrescenta. “Para o restante do mundo, a principal preocupação é se essa dinâmica já desencadeou uma recessão econômica. Essa é a grande pergunta: se talvez Trump já não tenha ultrapassado o ponto em que uma recessão e um processo inflacionário global se tornem inevitáveis”, conclui.
Em relatório divulgado nesta sexta-feira sobre a perspectiva econômica global, o Goldman Sachs observa que seus estrategistas de commodities esperam preços mais altos para o Brent ante nova avaliação de que o Estreito de Ormuz permaneça fechado até meados de abril. O choque no petróleo implica em acréscimo de 0,8 ponto porcentual na inflação global, excetuando-se o Oriente Médio, ao longo do ano no cenário-base da instituição. Em cenário extremo, “severamente adverso”, tal efeito poderia chegar a 2 pontos porcentuais, avalia o banco.
No núcleo de inflação – que exclui itens voláteis, como os preços de energia -, o efeito previsto ficaria entre 0,2pp e 0,5pp, acrescenta o Goldman Sachs. Para o PIB global (excluindo Oriente Médio), o choque nos preços de energia pode subtrair 0,4pp no cenário-base do banco, podendo chegar a 1,2pp no horizonte mais adverso desenhado pelo Goldman Sachs, que ainda espera dois cortes de 25 pontos-base nos juros do Federal Reserve, em setembro e dezembro. “Embora existam riscos em ambas as direções, o maior é o de recessão, ou de algo próximo a isso, o que engatilha cortes mais agressivos nos juros”, acrescenta o Goldman Sachs.
“Após vários dias seguidos, Trump não deu sinal de que conseguiu avançar nas negociações com o Irã, o que mantém o mercado de mau humor. Desempenho de hoje só não foi maior por causa da exposição do Ibovespa a empresas do setor de energia, beneficiadas pela alta do petróleo. Conflito é o que continua a fazer preço, e assim deve ser até que se tenha uma direção mais clara quanto a eventual suspensão da guerra”, diz Bruna Centeno, economista e advisor na Blue3 Investimentos.
Nesse contexto de extrema incerteza, o quadro das expectativas do mercado para o desempenho das ações no curtíssimo prazo manteve-se inalterado no Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira. Entre os participantes, a expectativa de queda para o índice na próxima semana permaneceu no mesmo porcentual da pesquisa anterior, a 37,50%. A previsão de estabilidade manteve-se em 25% e a de alta, em 37,50%.
Juros
A pouca visibilidade em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã para um acordo de cessar-fogo e novos ataques de Israel contra o país persa esfriaram o ânimo dos investidores no pregão desta sexta-feira, 27, que foi de oscilações mais contidas nos juros futuros.
As taxas operaram em alta durante toda a manhã e perderam fôlego no fim do período, quando o dólar renovou mínimas, também ajudadas, na ponta curta, pela firme queda do retorno dos Treasuries de dois anos. No início da tarde, os vértices de um e dois anos da curva local migraram para o terreno positivo, conforme agentes reduziam risco antes do final de semana, que pode ter nova escalada da guerra.
Em seguida, todos os vencimentos passaram a subir, ainda que com pouco ímpeto nos juros longos, em meio a notícias de que EUA e Israel atacaram a infraestrutura iraniana, apesar da prorrogação da pausa nas ofensivas até 6 de abril. Com o confronto e seu impacto sobre as cotações de petróleo dominando os negócios, indicadores domésticos novamente não conseguiram fazer preço na curva.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 14,327% no ajuste anterior para 14,395%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 14,07% a 14,115%. A taxa do DI para janeiro de 2031 oscilou de 14,155% para 14,15%.
Diante das incertezas sobre o processo de negociação entre os dois países e do bloqueio que persiste no fluxo de navegação pelo Estreito de Ormuz, o barril do petróleo tipo Brent para junho segue acima de US$ 100 o barril, e fechou com alta de 3,4% nesta sexta-feira.
“Os mercados estão respondendo a melhores perspectivas de um acordo de paz entre EUA e Irã, mas acreditamos que algum risco de mercado provavelmente persistirá”, aponta o time de estrategistas do Citi. Em relatório, o banco informa que adotou posição neutra em câmbio e juros para todos os mercados da América Latina.
Segundo a instituição, mesmo em um cenário de potencial arrefecimento do conflito, os investidores ainda devem precificar algum grau de risco geopolítico, o que significa que o barril do petróleo tipo Brent não se estabilizará muito abaixo do nível de US$ 95 a US$ 100. “Isso, por sua vez, pode significar que os bancos centrais dos mercados emergentes teriam pouco ímpeto para serem muito agressivos em suas tentativas de aliviar a política monetária a partir daqui”, afirmam os analistas.
Para Felipe Tavares, economista-chefe do BGC Liquidez, não houve uma grande notícia de peso que justificasse grande movimentação dos DIs. Mas a perspectiva de que o conflito não vai ser resolvido tão rapidamente se sobrepôs ao otimismo trazido em um primeiro momento pelas declarações positivas de Trump ao longo da semana, avalia ele.
“Ainda há uma esperança sobre o cessar-fogo, mas ela diminuiu. E tem também o medo da sexta-feira”, diz Tavares, levando em conta que o confronto pode piorar no fim de semana, o que justifica posições defensivas. O economista também relata que muitos players ainda estão zerando posições aplicadas (que apostam na queda das taxas), o que acentua a abertura da curva futura.
No cômputo semanal, apesar das oscilações diárias, as taxas terminaram praticamente no zero a zero, com nenhuma delas abaixo de 14%, enquanto o mercado precifica cada vez menos cortes para a Selic no ano. A curva apontava no final desta tarde taxa terminal de 14,3% para 2026. Para abril, a probabilidade de um corte de 0,25 ponto estava em 41%, ante 30% de manutenção.


