Unicamp inaugura Sala Ana Primavesi, com todo o acervo científico da engenheira agrônoma

Reconhecida como uma das maiores referências mundiais em agroecologia, a engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi, falecida há seis anos, aos 99 anos, dedicou mais de sete décadas à compreensão da vida no solo e à defesa de uma agricultura capaz de produzir alimentos em equilíbrio com a natureza. Seu trabalho transformou a forma como cientistas, agricultores e pesquisadores entendem a fertilidade da terra, ao demonstrar que o solo não é apenas suporte físico para as plantas, mas um organismo vivo, repleto de micro-organismos e relações biológicas essenciais para a saúde dos ecossistemas. Tanto que, ultimamente, com a resistência que pragas e doenças vêm adquirindo aos agrotóxicos e com a dificuldade de se desenvolverem novas moléculas para controlá-las, grandes indústrias do setor têm se voltado aos ensinamentos agroecológicos da “dra. Ana”.

Agora, a trajetória da agrônoma levou a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a criar um espaço dedicado à preservação de seu legado. No dia 18 de março, às 17h, será inaugurada a Sala Ana Maria Primavesi, na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho. O espaço, no câmpus da Unicamp, reunirá livros, manuscritos, anotações, documentos e objetos pessoais da pesquisadora, permitindo que estudantes e pesquisadores tenham acesso direto ao material que orientou sua produção científica.

A inauguração ocorre no âmbito do Primeiro Congresso Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, organizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) e promovido pela Francal, com apoio da Embrapa e participação da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, entre 17 e 19 de março, na própria universidade.

Nascida em 1920 na Áustria, Ana Primavesi chegou ao Brasil em 1948 ao lado do marido, o também agrônomo Artur Primavesi, trazendo no currículo o doutorado em Agronomia e a experiência de quem havia atravessado os anos turbulentos da Segunda Guerra Mundial. Foi no Brasil que desenvolveu a maior parte de sua obra científica, dedicando-se a estudar os solos tropicais e a relação entre fertilidade, biodiversidade e nutrição das plantas.

Sua visão inovadora consolidou o conceito de “solo vivo”, princípio central da agroecologia. Para a pesquisadora, a qualidade das plantas, dos alimentos e da própria saúde humana começa na terra. “Não existe solo rico ou pobre; existe solo vivo ou morto”, costumava afirmar. Ao longo de sua carreira, ela mostrou que solos equilibrados e biologicamente ativos produzem plantas mais resistentes a pragas e doenças, reduzindo a necessidade de agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Essa abordagem científica ajudou a estabelecer as bases da agricultura orgânica tropical e influenciou gerações de agrônomos, pesquisadores e agricultores. Seus livros – especialmente “Manejo Ecológico do Solo” – tornaram-se referência internacional e leitura fundamental em cursos de agronomia. Ao mesmo tempo, Primavesi sempre manteve uma relação direta com agricultores, traduzindo conceitos complexos em orientações práticas para o campo.

A inauguração da Sala Ana Maria Primavesi na Unicamp contará com a presença de Carin Primavesi, filha da agrônoma, que dará palestra sobre a vida e a obra da mãe. O público também poderá participar de uma visita guiada ao acervo, conduzida pela diretora da biblioteca, Danielle Ferreira, pela pesquisadora responsável pela catalogação da coleção, Isabella Pereira, e pela biógrafa da cientista, Virgínia Mendonça Knabben.

Durante o evento também será relançado o livro “Ana Maria Primavesi: histórias de vida e agroecologia”, escrito por Virgínia Knabben e editada pela Expressão Popular, além da nova edição de “Manejo Ecológico do Solo”, obra considerada uma das mais importantes da agroecologia e que reúne décadas de pesquisa, ensino e experiência de campo da cientista.

Para os organizadores, a criação da sala representa mais do que uma homenagem simbólica. O objetivo é preservar e difundir o pensamento de uma pesquisadora que ajudou a transformar a agricultura brasileira e cuja obra continua influenciando debates sobre sustentabilidade, produção de alimentos e conservação ambiental.

Ao reunir seus livros, anotações e documentos em um espaço permanente, a universidade busca garantir que o conhecimento produzido por Ana Primavesi continue acessível às novas gerações – e que a ideia que orientou toda a sua trajetória permaneça viva: a de que cuidar do solo é, em última instância, cuidar da própria vida.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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