Na semana, mesmo mostrando menos força, Ibovespa assegura ganho de 0,87%; dólar cai 0,52%

Mesmo com energia menor em relação ao rali deflagrado em meados de janeiro que o alçou a novos recordes, o Ibovespa conseguiu encerrar a primeira semana de fevereiro com ganho de 0,87% no intervalo, após avanço de 1,40% na anterior, de 8,53% na segunda ‘perna’ da série de recordes e de 0,88% na que a havia iniciado, no dia 14 passado. Hoje, o índice da B3 operou colado à estabilidade na maior parte da sessão e ganhou alguma força em direção ao fechamento, em alta de 0,45%, aos 182.949,78 pontos, tendo oscilado entre mínima de 181.390,73 e máxima de 183.262,07 pontos na sessão. O giro se mostrou ainda em bom nível, a R$ 30,1 bilhões. No ano, o Ibovespa sobe 13,54%.

Em boa parte da sessão, o Ibovespa patinou em torno do limiar de 182 mil pontos, descolado de avanço dos principais índices de ações em Nova York, apesar do dólar em baixa frente ao real, de cerca de 0,63%, a R$ 5,2204 no fechamento. Os rendimentos do DI também cederam terreno, mas a combinação favorável de câmbio e juros futuros não foi o suficiente para combater a fadiga do índice da B3, após um mês de janeiro impulsionado a recordes com o aumento do fluxo estrangeiro. Em Nova York, os ganhos chegaram a 2,47% (Dow Jones) na sessão de hoje, com S&P 500 e Nasdaq mostrando alta, pela ordem, de 1,97% e 2,18% no encerramento.

Na B3, as blue chips operaram em baixa nesta sexta-feira, à exceção do principal papel do setor financeiro, Itaú PN, que subiu 2,70%, ainda sustentado por leitura favorável sobre os resultados do quarto trimestre de 2025, divulgados nesta semana. Por outro lado, Bradesco cedeu hoje na ON (-1,98%) e na PN (-2,55%) após o balanço trimestral e a decepção do mercado com relação ao guidance da instituição. Vale ON fechou em baixa de 0,95% e Petrobras com perda de 1,04% na ON e de 0,95% na PN. Na ponta negativa do Ibovespa, CSN (-3,94%) e Cogna (-3,30%), além de Bradesco. Do lado ganhador, Direcional (+6,90%), Magazine Luiza (+5,70%) e B3 (+4,80%).

Para Christian Iarussi, economista e sócio da The Hill Capital, fatores domésticos pesaram na sessão. “A queda do minério de ferro, a oscilação do petróleo e, principalmente, o recuo das ações do Bradesco pressionaram o mercado”, diz. “O banco divulgou aumento da inadimplência e sinalizou provisões maiores para este ano, o que acabou contaminando todo o setor financeiro”, acrescenta.

Ele observa que, em Nova York, as bolsas buscaram hoje se recuperar das perdas recentes, com avanço apoiado, na sessão, pela melhora do sentimento do consumidor. Ainda assim, o momento de recuperação por lá tende a ser limitado pelo receio em torno dos investimentos elevados nas grandes empresas de tecnologia, especialmente a Amazon, que apresentou um plano de Capex acima do esperado, enfatiza Iarussi.

Na B3, além do ajuste nas commodities metálicas, destaque, no setor bancário, para Bradesco com a reação negativa ao aumento da inadimplência, enquanto as ações de siderurgia e mineração responderam à retração do minério de ferro no exterior.

“No caso da Vale, além do recuo do minério, pesam questões operacionais como a suspensão de atividades em algumas unidades após eventos climáticos, e o aumento do escrutínio regulatório e ambiental”, acrescenta. “No caso das siderúrgicas, o movimento reflete um cenário mais desafiador para o setor com expectativa de queda na produção global de aço, pressão de importações mais baratas e níveis elevados de capacidade ociosa. Tudo isso reduz a visibilidade de margens e acaba penalizando as ações”, acrescenta.

Otávio Oliveira, gerente de Tesouraria do Daycoval, destaca o comportamento do câmbio na sessão, em viés de queda claro, chegando a testar a barreira dos R$ 5,20 ao longo do dia, “mas sem força para permanecer abaixo disso”. “Fluxo estrangeiro que entrou nos últimos dias e, principalmente, semanas com altas recordes em especial para a Bolsa parece que chegou a um ponto de equalização”, diz. “Não parece haver a mesma perspectiva de entrada de fluxo estrangeiro no mesmo volume visto, com o dólar mostrando suporte um pouco mais forte na casa de R$ 5,20”, ressalta.

Nesse contexto, o pessimismo do mercado em relação ao desempenho das ações no curtíssimo prazo cresceu fortemente no Termômetro Broadcast Bolsa desta sexta-feira. A expectativa de queda para o Ibovespa na semana que vem agora é amplamente majoritária entre os participantes, com fatia de 50%, ante 18,18% na pesquisa anterior. A percepção de alta, ao contrário, caiu, de 45,45% para 30,00%. A de estabilidade passou de 36,36% para 20,00%.

Dólar

O dólar apresentou queda firme no mercado doméstico nesta sexta-feira, 6, dia marcado por desvalorização global da moeda americana, recuperação dos preços de commodities e apetite por ativos de risco. Operadores ressaltam que o real se comportou bem mesmo em momentos de avanço do dólar no exterior ao longo da semana, em meio a sinais ambíguos da economia dos EUA e às reações à indicação do ex-diretor do Federal Reserve Kevin Warsh para a presidência do Banco Central americano.

A avaliação predominante é a de que o real ainda pode se beneficiar nas próximas semanas do movimento de diversificação com global que toma conta dos mercados, com investidores reduzindo exposição a ativos denominados em dólar. Mesmo com um início de ciclo de cortes da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) a partir de março, os juros locais vão permanecer em níveis elevados, desencorajando carregamento de posições em dólar.

Com mínima de R$ 5,2058, o dólar à vista encerrou o dia cotado a R$ 5,2204, em queda de 0,63%. A moeda termina a primeira semana de fevereiro com baixa de 0,52%, após recuo de 4,40% em janeiro – a maior desvalorização mensal desde junho de 2025, quando caiu 4,99%.

Para o gerente de tesouraria do Daycoval, Otávio Oliveira, parece haver uma “equalização” do fluxo de estrangeiro que levou o Ibovespa a bater sucessivos recordes e contribuiu para a apreciação do real ao longo de janeiro. “Não temos perspectivas de entradas como às que estávamos vendo. Parece que o dólar encontrou um suporte um pouco mais forte na casa dos R$ 5,20”, afirma Oliveira.

Lá fora, o índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – operou em leve baixa hoje e rondava os 97,640 pontos no fim da tarde, mas fecha a semana com ganhos de cerca de 0,50%. A migração de posições em dólar para metais e ativos emergentes sofreu solavancos desde a indicação de Warsh por Trump.

“A indicação de Warsh para o comando do Fed a partir de maio trouxe bastante volatilidade ao mercado, devido ao histórico mais duro de Warsh no combate à inflação, o que foi lido como um empecilho para a continuidade dos cortes nos juros americanos”, afirma o economista sênior do banco Inter, André Valério. “Com isso, vimos uma valorização do dólar a nível global no início da semana, o que, concomitantemente com o episódio de risk-off que atingiu principalmente as commodities metálicas, trouxe bastante volatilidade para as moedas emergentes como o real”.

Economistas da Armor Capital observam que, além de assimilar a indicação de Warsh ao Fed, investidores digeriram ao longo da semana indicadores americanos que mostraram uma “dicotomia entre a atividade ainda resiliente e um mercado de trabalho em processo de arrefecimento”.

Do lado da atividade industrial elaborado pelo Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês) subiu de 47,9 em dezembro para 52,6 em janeiro, acima do esperado por analistas. Já os relatórios de emprego ADP e Jolts trouxeram números fracos.

“Essa descorrelação entre os indicadores de atividade e de emprego gerou elevada volatilidade nos preços dos ativos, com as commodities metálicas devolvendo parte das altas acumuladas ao longo de janeiro”, afirmam os economistas da Armor.

Valério, do Inter, ressalta que os sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho reforçaram a expectativa pela divulgação, no próximo dia 11, do relatório de emprego (payroll) de janeiro. “Com a continuidade da piora do mercado de trabalho, aliado a uma inflação contida, podemos ver uma moderação no tom do FOMC (comitê de política monetária do Fed, na sigla em inglês), abrindo espaço para a retomada do corte de juros em março”, afirma o economista sênior.

Juros

Já com abertura mais pronunciada na primeira etapa do pregão, os juros futuros longos aceleraram a alta a partir do meio da tarde. O estopim para a piora foi notícia, dada pela Folha de S.Paulo e confirmada logo depois pelo Broadcast Político, de que a bancada petista na Câmara dos Deputados tem intenção de diminuir a autonomia do Banco Central após as irregularidades que vieram à tona no banco Master.

Segundo o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), o caso Master evidencia que o BC não pode ter total autonomia operacional e, por isso, os parlamentares da sigla terão reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O objetivo seria discutir uma alteração constitucional para aumentar o controle sobre a autarquia.

Para profissionais do mercado consultados pela Broadcast, é pouco provável que a iniciativa dos deputados tenha de fato algum resultado. Mas, em um dia fraco na agenda econômica, foi suficiente para aumentar a inclinação da curva a termo. Já os trechos mais curtos seguiram em leve queda, com os agentes ainda mais confiantes de que o ciclo de afrouxamento monetário terá início com um corte de 50 pontos-base na Selic.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 13,379% no ajuste de ontem para 13,36%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 12,727% no ajuste anterior a 12,76%. O DI para janeiro de 2031 avançou a 13,205%, vindo de 13,148% no ajuste antecedente.

Gestor de renda fixa da Kinea Investimentos, Guilherme Rodrigues avalia que a notícia sobre a possível revisão da autonomia do BC pode representar apenas um ruído, mas contribuiu para maximizar o movimento de “bull steepening” da curva, ou seja, quando as taxas de longo prazo sobem mais rapidamente do que as de horizontes mais próximos.

Segundo Rodrigues, essa tendência é típica de momentos próximos de ciclos de flexibilização do juro básico, como o atual. “O efeito inicial é ficar mais aplicado na parte curta. E aí a ata do Comitê de Política Monetária Copom confirmou totalmente o corte de 50 pontos-base, ao mostrar que não teve nenhum desconforto do BC com essa precificação”, disse. A leitura da autoridade monetária, em sua visão, sinaliza um orçamento total de ajuste na Selic de ao menos 300 pontos-base em 2026.

No cômputo semanal, o saldo também foi de ganho de inclinação na curva. A taxa negociada para o primeiro mês de 2027 cedeu 12 pontos-base em relação ao fechamento da última sexta-feira, depois de a ata do Copom não ter ido contra as expectativas da maioria dos agentes para o primeiro corte da Selic.

Já os vértices de janeiro de 2029 e de 2031 abriram 3,5 pontos-base e 11 pontos-base, respectivamente, afetados pelo estresse causado pela possível nomeação do atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, a uma das diretorias vagas do BC. O mercado tem receio de que Mello, de orientação heterodoxa e próximo ao governo petista, ocupe a cadeira de Política Econômica.

Nesta manhã, durante apresentação do balanço macrofiscal de sua secretaria, Mello disse que ainda não recebeu nenhum convite para o cargo de diretor do BC, mas aceitaria se tivesse. A SPE aumentou marginalmente a sua projeção para a inflação de 2026, de 3,5% para “cerca de” 3,6%. Tanto os dados quanto as declarações do economista não tiveram impacto relevante sobre a curva futura hoje.

Relatório semanal do Santander cita que a curva a termo precificava nesta sexta-feira cerca de 80% de chance de corte de 0,5 ponto do juro básico na reunião de março do Copom, com a Selic terminando o ano por volta de 12%. Após ter mudado a projeção de uma ajuste inicial de 25 pontos-base para um de 50 pontos-base em seguida à ata, a instituição reduziu hoje sua estimativa para a taxa final do ano, de 12,5% para 12%.

Para o head de política monetária do banco, Marco Antonio Caruso, as recentes comunicações do BC sugerem que há “conforto” com as apostas do mercado financeiro em torno de um corte “mais firme” na taxa de juros já na reunião de março. A instituição financeira também está ligeiramente mais otimista com o nível da inflação ao longo de 2026, passando a prever IPCA de 3,7% no final do ano, ante estimativa anterior de 3,8%.

Avatar photo

Por Redação Folha de Guarulhos.

Deixe um comentário