Dólar tem leve alta com dinâmica global da moeda americana e recuo do petróleo

O dólar apresentou leve alta nesta segunda-feira, 2, alinhado ao avanço da moeda americana no exterior, embora algumas divisas latino-americanas tenham se apreciado. Operadores atribuíram o escorregão do real a um movimento de realização de lucros após o rali de janeiro, em ambiente marcado por queda de mais de 4% do petróleo com a diminuição das tensões entre Estados Unidos e Irã.

Apesar de relatarem certo desconforto nas mesas de operação com a provável indicação do secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, para a diretoria do Banco Central pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, gestores de recursos ouvidos pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado não viram impacto relevante na formação da taxa de câmbio.

Tirando uma queda pontual e bem limitada na primeira hora de negócios, quando registrou mínima de R$ 5,2370, a moeda americana trabalhou em terreno positivo no restante do dia. Com máxima de R$ 5,2815, o dólar à vista terminou o dia em alta de 0,22%, a R$ 5,2593, após recuo de 4,40% em janeiro.

“Temos uma ligeira alta do dólar aqui, enquanto outras moedas emergentes se apreciam. Parece mais algo técnico, já que o real vem de uma valorização bem forte”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, para quem não há mudança na tendência positiva para a moeda brasileira. “Embora o BC tenha deixado claro que vai iniciar o ciclo de corte da Selic em março, o diferencial de juros vai continuar bastante atrativo para o carry trade”.

Lá fora, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – emendou o segundo pregão de alta firme e subia cerca de 0,70% no fim da tarde, ao redor dos 97,600 pontos, perto da máxima da sessão, aos 97,733 pontos. O Dollar Index ainda recua cerca de 0,65% no ano.

As taxas dos Treasuries avançaram em meio a sinais de vigor da economia americana. Principal indicador do dia, o índice de atividade industrial dos EUA elaborado pelo Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês) subiu de 47,9 em dezembro para 52,6 em janeiro, bem acima do previsto pelos analistas.

Para o head de banking da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, investidores ainda digerem a indicação do ex-diretor do Fed Kevin Warsh para a presidência da instituição no lugar de Jerome Powell, cujo mandato termina em maio. Viotto pondera que o nome de Warsh diminuiu os temores de ingerência política no Fed, embora o ex-diretor tenha recentemente se mostrado a favor de um alívio monetário como defendido por Donald Trump.

“Warsh tem um histórico de ser mais duro com a inflação e também é crítico do aumento do balanço do Fed. Se ele assumir com essa postura, apesar de ser indicado por Trump, pode reduzir a tendência de queda global do dólar”, afirma Viotto, para quem há espaço para nova rodada de apreciação do real neste primeiro trimestre, caso não haja surtos de aversão ao risco no exterior. “O dólar pode cair para R$ 5,00 neste primeiro trimestre, com a Selic ainda bem elevada e com a eleição presidencial ainda distante”.

Em segundo plano nos últimos dias, o noticiário doméstico voltou a movimentar as mesas de operação com a indicação do economista Guilherme Mello por Haddad para uma vaga na diretoria do BC. A indicação foi revelada pela Bloomberg e confirmada pelo Broadcast.

Um experiente diretor de investimentos afirma, em condição de anonimato, que o tema foi tratado em conversas por gestores ao longo do dia. A avaliação é a de que Mello, pelo perfil heterodoxo e proximidade com o PT, destoaria do tom mais conservador adotado pelo BC na gestão de Gabriel Galípolo, que superou as desconfianças iniciais sobre a independência da política monetária ao ser escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para substituir Roberto Campos Neto.

Um experiente gestor de recursos tece elogios a Mello e argumenta que é “muito difícil” relacionar o comportamento do real, que teve desempenho inferior aos pares, a indicação do secretário ao BC.

“Pode até ser que tenha tido alguma influência, mas eu sou muito crítico a essas reações do mercado, que sempre olha torto para quem não vem de um grande banco ou não é um amigo de academia”, afirma o gestor, que cita o próprio caso de Galípolo, que, em sua avaliação, faz um “trabalho que Campos Neto não faria” ao apertar bastante a política monetária.

Bolsa

O Ibovespa encerrou a primeira sessão de fevereiro acima dos 182 mil pontos, ganhando força perto do fechamento, com Nova York, após duas sessões de moderada correção ante os níveis recordes vistos desde meados de janeiro. Oscilou entre mínima de 181.347,63 e máxima de 182.889,95 pontos, tendo saído de abertura aos 181.369,00 pontos. Ao fim, marcava 182.793,40 pontos, em alta de 0,79%, com giro a R$ 28,6 bilhões, em nível ainda sólido, mas já um pouco mais acomodado em relação ao que se observou em janeiro, quando superou a linha de R$ 30 bilhões em diversas sessões. No ano, o Ibovespa progride 13,45%.

A abertura de fevereiro foi majoritariamente positiva para as blue chips, à exceção de Petrobras (ON -1,98%, PN -1,38%), que não conseguiu se descolar da queda dos contratos futuros da commodity em Londres e Nova York, em baixa na casa de 5% na sessão. A correção decorre da redução de tensões entre EUA e Irã, além de avanço nas negociações entre Rússia e Ucrânia para alcançar cessar-fogo. Estiveram ainda no radar o dólar forte e a manutenção dos níveis de produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+), no fim de semana.

Por outro lado, as ações de bancos e do setor metálico subiram em bloco nesta segunda-feira, 02, mostrando um pouco mais de força do meio para o fim da tarde, o que contribuiu para firmar o Ibovespa na casa dos 182 mil pontos.

Em Nova York, os principais índices de ações subiram até 1,05% (Dow Jones) na sessão. O dólar à vista teve alta de 0,22%, perto da casa de R$ 5,26 no fechamento. Na B3, Vale ON subiu 0,59% e os ganhos entre os principais bancos chegaram a 1,38% (Santander Unit) e a 1,95% (BTG Unit) no encerramento. Na ponta ganhadora do Ibovespa, Direcional (+6,59%), Cury (+5,44%) e C&A (+4,36%). No lado oposto, Raízen (-8,74%), PetroReconcavo (-3,19%) e Brava (-2,59%).

“Mercado voltou a mostrar robustez, na medida em que havia receio quanto a uma correção maior neste começo de semana, que não veio. O trade de janeiro, temia-se, podia sofrer reversão. E o começo do dia era mesmo de certa aversão a risco, com visão de ajuste e realização de lucros”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. “Ainda não se pode descartar correções em fevereiro, que seria até natural, saudável e bem-vinda”, acrescenta. “Mas há resiliência, para um mês que promete muita informação, ainda, com volatilidade esperada para o jogo.”

Para Nícolas Merola, analista da EQI Research, a semana anterior ainda pesa sobre o que se vê, como desdobramento, para a que começa agora, como a definição de quem substituirá Jerome Powell na presidência do Federal Reserve, Jerome Powell, em maio: Kevin Warsh, que já esteve no Fed. “Houve uma distensão severa em relação aos riscos que se associava a este evento substituição de Powell ao fim de seu mandato, ainda que Warsh seja um pouco mais dovish”, diz Merola. Ele destaca os efeitos da decisão sobre o câmbio, os Treasuries e, também, sobre outros ativos defensivos como o ouro.

“Tendência é de que o dólar continue se apreciando”, refletindo essa devolução de prêmio de risco, observa Merola, acrescentando que as futuras declarações de Warsh, no processo de confirmação do nome nos EUA, serão acompanhadas com lupa pelos investidores. A semana reserva pontos altos na agenda corporativa, com o prosseguimento da temporada corporativa que, na avaliação de Merola, não tem se mostrado tão homogênea, seja para os bancos, seja entre as grandes empresas de tecnologia. “Na agenda de dados, semana tende a ser mais calma, mas o noticiário corporativo tende a orientar os negócios”, acrescenta.

Juros

A curva a termo percorreu o pregão desta segunda-feira, 02, em um claro movimento de “bear steepening”, com inclinação devido a aumento mais forte nas taxas de longo prazo, ao passo que a ponta curta operou praticamente estável, com leve baixa.

Os vértices a partir de janeiro de 2030 foram impulsionados pela abertura da curva dos Treasuries e pelo avanço do dólar. Além da pressão vinda de fora, participantes do mercado consideram que a possível indicação de Guilherme Mello, atual secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, a uma das diretorias do Banco Central foi outro vetor para o estresse nos DIs. Esse efeito teria ficado evidente justamente na ponta longa, mais sensível à percepção de que decisões de política monetária poderiam sofrer alguma interferência do Executivo.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2027 caiu de 13,468% no ajuste anterior a 13,455%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 12,962% no ajuste a 12,75%. O DI para janeiro de 2031 marcou 13,145%, vindo de 13,042% no ajuste.

A recomendação de Mello, feita pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, à Presidência, foi confirmada ao Estadão por fontes próximas do secretário e de Haddad. Mestre em Economia Política pela PUC de São Paulo e Doutor em Ciência Econômica pela Unicamp, Mello integra o círculo de confiança dos petistas, e foi um dos economistas que elaborou o plano de governo do presidente Lula nas eleições de 2022.

Segundo reportagem especial da Broadcast, a indicação levantou mais críticas e dúvidas do que aceitação entre ex-diretores da autoridade monetária. Depois de ter o aval de Lula, a nomeação também precisa passar pelo Senado, que vai sabatinar o economista caso seu nome seja formalizado.

“O ‘steepening’ hoje tem bastante do Guilherme Mello”, afirmou um economista de uma grande Tesouraria à Broadcast. “Uma parte é o juro abrindo no mundo, mas Mello seria bem ruim”, avaliou.

Segundo o participante do mercado, a possibilidade de que o secretário venha a se tornar diretor do BC acabou por afetar toda a estrutura da curva: os trechos mais curtos são pressionados para baixo, uma vez que o mercado assume que a autoridade monetária cortaria mais os juros, enquanto a parte mais longa mostra alta firme, porque os agentes avaliam que reduções maiores seriam um erro que teria de ser corrigido com ajustes para cima na Selic no futuro.

Na visão de um ex-diretor do BC, que falou sob anonimato à Broadcast, Mello seria uma “péssima escolha” e indicaria uma espécie de “retaliação pura” do comandante da Fazenda contra o presidente do BC, em resposta à demora da autarquia em iniciar o aguardado ciclo de afrouxamento monetário.

Para Andrea Damico, economista-chefe e fundadora da Buysidebrazil, as notícias acerca da indicação de Mello para o BC contribuíram para a elevação dos DIs nesta segunda, mas o vetor externo também foi relevante. Por volta das 18h, o retorno da T-Note de 2 anos subia a 3,574%. O rendimento da T-Note de 10 anos avançava a 4,281%, e o juro do T-Bond de 30 anos anotava alta a 4,912%.

Pela manhã, foi publicado o índice de atividade industrial dos EUA, que subiu de 47,9 em dezembro para 52,6 em janeiro. O dado ficou consideravelmente acima da previsão de analistas consultados pela FactSet, de 48,9, e pressionou a curva dos Treasuries. Na parte da tarde, o presidente da distrital de Atlanta do Federal Reserve (Fed), Raphael Bostic, disse que é preciso ter paciência para reduzir os juros porque a inflação americana segue elevada, levando os yields dos títulos soberanos dos EUA a acentuarem discretamente o ritmo de alta.

Diretor de análise da Zero Markets Brasil, Marcos Praça acrescenta que a escolha de Kevin Warsh como próximo presidente do BC americano ainda levanta dúvidas no mercado, porque embora suas últimas declarações tenham inclinação mais ‘dovish’, este não é seu histórico. “Parece que ele fala só para agradar o presidente Donald Trump. Acho que primeiro o mercado viu com bons olhos, mas agora parece que não está comprando mais essa ideia”.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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