Dólar sobe ante real, mas cai contra pares fortes diante tensão EUA-Europa

A terça-feira, 20, foi marcada pela saída de fluxo de ativos americanos, decorrente do aumento na tensão entre Estados Unidos e União Europeia por conta da Groenlândia, mas o real não conseguiu firmar uma apreciação.

Depois de tocar R$ 5,40 (+0,83%) pela manhã com relatos de recompras de hedge de investidores estrangeiros já posicionados em carry trade, o dólar à vista chegou a tocar mínima a R$ 5,35 (-0,08%) no início da tarde por um fluxo pontual que coincidiu com o Ibovespa ganhando força, inclusive renovando recorde histórico intradia. Por fim, contudo, a divisa americana voltou a ganhar terreno e encerrou em alta de 0,31%, a R$ 5,3805.

“Estamos sofrendo com a volatilidade externa por conta da tensão entre Estados Unidos e Europa. Não se sabe o tamanho da briga e há dúvidas sobre o quão imediata será, já que Trump até então postergava muito para aplicar tarifas – como visto no caso com China e Brasil”, comenta o economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares. Ele nota, contudo, que de segunda para terça a tensão vem se intensificando de ambos os lados.

O Parlamento Europeu suspenderá o acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos, em meio as crescentes tensões envolvendo a Groenlândia, segundo a mídia internacional. Além disso, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que “a soberania não é moeda de troca” e que “nenhuma ameaça ou tarifa mudará o fato de que a Groenlândia pertence ao seu povo”.

Já Trump ameaçou impor tarifas de 200% a vinhos e champanhes franceses, como medida de retaliação à recusa do presidente francês, Emmanuel Macron, de integrar o recém-proposto “Conselho da Paz”, uma iniciativa liderada por Trump que tem por objetivo abordar conflitos globais, começando pela Faixa de Gaza, mas que tem causado controvérsia por incluir líderes autocratas e potencialmente esvaziar o papel das Nações Unidas.

“Acho que o mercado está tenso, de que tarifas podem começar mais rápido do que se esperava”, diz Tavares.

No noticiário doméstico, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) a visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão em Brasília.

Segundo o sócio e analista Rafael Passos, da Ajax Asset, a notícia reanimou a possibilidade de que o governador de São Paulo volte ao campo eleitoral para a Presidência. O mercado financeiro entende que Tarcísio teria mais força para competir contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo turno e, em tese, teria política fiscal mais austera.

Bolsa

Na contramão de Nova York, onde pesaram as preocupações geopolíticas na retomada dos negócios após o feriado, o Ibovespa renovou recordes intradia e de fechamento nesta terça-feira, 20. Da mínima à máxima da sessão, oscilou de 163.574,67 a 166.467,56 pontos, partindo de abertura a 164.846,22. Ao fim, marcava 166.276,90 pontos, alta de 0,87%, com giro financeiro de R$ 23,5 bilhões. Na semana, o Ibovespa soma 0,90% e eleva o ganho do mês e do ano para 3,20%.

O imbróglio tarifário e geopolítico entre americanos e europeus estimula a busca por diversificação em emergentes, como o Brasil – favorecido ainda pelo carry trade (estratégia que explora o diferencial de juros), proporcionado pelo elevado patamar da taxa Selic. No plano doméstico, a expectativa pelo encontro do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com o ex-presidente Jair Bolsonaro reacende o adormecido trade de que Tarcísio poderá viabilizar candidatura à Presidência da República, com apoio do ex-mandatário.

“A autorização do ministro Alexandre de Moraes para a visita de Tarcísio de Freitas a Jair Bolsonaro reacendeu rumores no mercado político. A leitura predominante é a de que pode estar em acordo uma possível chapa presidencial, com Tarcísio como candidato e Michelle Bolsonaro como vice”, diz Leonardo Santana, especialista em investimentos e sócio da casa de análise Top Gain. Essa hipótese, segundo ele, mesmo sem confirmação, foi o suficiente para animar os mercados, “uma vez que poderia provocar reviravoltas tanto nas pesquisas eleitorais quanto nas expectativas econômicas”, acrescenta Santana.

Dessa forma, ainda no começo da tarde, o Ibovespa rompeu o recorde intradia de 166.069,84 pontos, registrado em 15 de janeiro, e fixou a nova melhor marca cerca de 400 pontos acima da referência anterior. Em Nova York, por outro lado, os principais índices de ações fecharam com perdas de 1,76% (Dow Jones), 2,06% (S&P 500) e 2,39% (Nasdaq).

Na B3, as principais blue chips impulsionaram o Ibovespa. As ações da Petrobras (ON +0,85%; PN +0,37%) acompanharam em parte a alta de mais de 1% dos contratos futuros do Brent e do WTI, em Londres e Nova York. Papel de maior peso individual no índice, Vale ON ganhou força à tarde e subiu 1,92%, a R$ 80,08 no fechamento e bem perto da máxima do dia (R$ 80,21). Entre os maiores bancos, destaque para Bradesco PN (+1,43%) e Santander Unit (+2,01%, na máxima do dia no encerramento). Na ponta ganhadora do Ibovespa ficaram TIM (+4,98%), C&A (+4,34%) e Telefônica Brasil (+3,97%). No lado oposto, CSN (-3,04%), Usiminas (-2,99%) e B3 (-2,85%).

“Há uma fuga de capital dos Estados Unidos, com muita gente vendendo Treasuries. E parte desses recursos acaba migrando para emergentes como o Brasil, a partir desse ‘sell-off’, essa onda de vendas em cima dos ativos americanos”, resume Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos. Ele destaca o ganho de liquidez decorrente da redução global de posições em títulos do Tesouro americano, papel tradicionalmente visto como proteção, mas penalizado pelas idas e vindas do governo dos EUA contra aliados como a União Europeia.

O fundo de pensão dinamarquês AkademikerPension, por exemplo, informou nesta terça-feira que venderá, até o fim do mês, suas participações em títulos do Tesouro dos Estados Unidos avaliadas em cerca de US$ 100 milhões. De acordo com a Agência Reuters, o fundo citou a fragilidade das finanças do governo americano. Apesar da coincidência, ressaltou que a decisão não tem caráter político nem ligação com o atrito entre Dinamarca e EUA.

Em Davos, no Fórum Econômico Mundial (WEF), o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, afirmou que, se a Europa retaliar as tarifas anunciadas pelo governo Trump, “então será um jogo de retaliação mútua”.

Também de passagem por Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, disse que países têm usado tarifas comerciais como armas, em busca de vulnerabilidades a explorar, e que o Canadá tem aumentado sua resiliência internamente. “Os Estados Unidos são uma boa conexão, mas também precisamos de China, Índia e Mercosul”, acrescentou.

Por sua vez, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a ofensiva diplomática e comercial contra a Europa, ameaçando impor tarifa de 200% sobre os vinhos e champanhes franceses. A medida foi anunciada como uma retaliação direta à recusa do presidente francês, Emmanuel Macron, em integrar o recém-proposto “Conselho da Paz”, uma iniciativa liderada por Trump.

“Há energia conflituosa, uma dinâmica que se reflete também no câmbio, pressionando o dólar abaixo frente a moedas de referência como euro, iene e libra, da cesta do índice DXY, mas também o apreciando na comparação com as moedas de emergentes, como foi o caso desta terça do real”, aponta Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. No fechamento, o dólar spot mostrava ganho de 0,31%, a R$ 5,3805.

Juros

Contaminados pela aversão maior ao risco que dominou os mercados globais nesta terça-feira, 20, os juros futuros negociados na B3 se consolidaram em elevação desde a abertura dos negócios, com ganho de inclinação da curva a termo.

A alta chegou a perder algum fôlego no início da tarde, quando o dólar inverteu o sinal positivo e passou a operar em queda ante o real. Mas o alívio vindo do câmbio não perdurou, e os juros voltaram a abrir cerca de 4 pontos-base no trecho mais curto e de 8 a cerca de 10 pontos-base nos intermediários e longos.

Sem indicadores domésticos na agenda, o aumento das tensões geopolíticas e comerciais entre Europa e Estados Unidos por causa da Groenlândia foi o pano de fundo para a elevação dos juros. Os DIs seguiram, ainda que em menor intensidade, o movimento da curva dos Treasuries, que foi pressionada pela busca maior por ativos seguros. Outra influência de fora veio do Japão, onde os retornos de títulos soberanos longos atingiram níveis recorde devido a preocupações fiscais.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,757% no ajuste anterior para 13,81%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 13,28%, vindo de 13,168% no ajuste antecedente. A taxa de janeiro de 2031 aumentou de 13,483% no ajuste de segunda-feira para 13,61%.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reforçou nesta terça ameaças tarifárias contra a União Europeia se o bloco resistir à sua tentativa de anexar o território da Groenlândia, que atualmente pertence à Dinamarca. Segundo Trump, ele não vai recuar deste objetivo.

“O Ártico deixou de ser apenas um espaço de cooperação e passou a refletir rivalidades estratégicas entre Estados Unidos, Rússia e China, com a Europa em posição secundária”, observa o diretor de pesquisa econômica do banco Pine, Cristiano Oliveira, em análise sobre o conflito.

O interesse militar americano pela ilha não é novo, remontando ao período do imediato pós-guerra mundial, nota Oliveira. “A novidade está menos no diagnóstico e mais na forma. Qualquer tentativa de ‘aquisição’ externa é juridicamente inviável sem o consentimento de sua população. Além disso, embora sua localização seja estratégica para vigilância, seu valor militar direto hoje [terça] é frequentemente exagerado”, nota o diretor.

“As tensões geopolíticas aumentaram. Vimos as taxas de juros dos Treasuries subindo bastante, e a pressão nos DIs acompanhou o mercado externo”, afirmou Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG. “O mercado de renda fixa global tem maior profundidade. Toda vez que há uma mudança de percepção, geralmente isso traz um movimento mais forte”, disse.

Por volta das 18h, o retorno da T-Note de 2 anos aumentava a 3,597%. O rendimento da T-Note de 10 anos avançava a 4,292%, e o do T-Bond de 30 anos subia a 4,917%. Em uma semana sem publicação de indicadores econômicos por aqui e com expectativa de manutenção da Selic na decisão de semana que vem do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, de acordo com Serrano, o exterior foi o determinante para a piora no mercado de renda fixa local.

Avatar photo

Por Redação Folha de Guarulhos.

Deixe um comentário