Real tem pior performance que pares com correção e desconforto geopolítico

O dólar voltou a ganhar força na reta final do pregão, com o real tendo o pior desempenho entre as principais divisas de emergentes e exportadores de commodities, por conta de um movimento de correção alinhado a um desconforto geopolítico.

O maior ponto de estresse – que fez a divisa tocar R$ 5,42 pela manhã – decorreu da orientação do Departamento de Estado dos Estados Unidos de suspender a emissão de vistos para cidadãos brasileiros. Contudo, a moeda chegou a apagar os ganhos no início da tarde com o entendimento de que a medida se estende a outros 74 países e não se aplicará a vistos de não imigrante, categoria que compõe a grande maioria dos solicitantes.

Nos últimos minutos da sessão o fator voltou a chamar a atenção junto com as tensões no Irã e na Groenlândia, que minam apetite a risco. Assim, o dólar à vista fechou em alta de 0,46%, a R$ 5,4008, enquanto o contrato futuro para fevereiro subia 0,33%, a R$ 5,414.

“A moeda está mais esticada, então pode ser movimento de correção”, justifica o economista Gustavo Rostelato, da Armor Capital, para a performance do câmbio. No acumulado de 2026, o dólar ainda perde 1,61% ante o real.

Para Rostelato, o principal motor de preço foi o fato de o Brasil sofrer com a suspensão de vistos pelos EUA, medida que deve valer a partir de 21 de janeiro. Contudo, ele enfatiza que o entendimento de que a medida se prolonga a outros 74 países ajudou a arrefecer a pressão.

O gerente da tesouraria do banco Daycoval, Otávio Oliveira, afirma que a divisa brasileira chegou a R$ 5,4232 segundos após a notícia por conta de trade automático, com robôs. “Mas querendo ou não é um indicativo até que razoável de que cada vez mais os EUA vêm, seja social, política ou economicamente, se isolando de alguns países”, avalia.

Oliveira acrescenta que as tensões no Irã e na Groenlândia favorecem saída de dólar de mercados de risco, em um cenário de maior volatilidade externa.

Instantes após o dólar a vista fechar, o presidente Donald Trump afirmou que foi avisado de que as execuções no Irã acabaram e que não há planos para execuções. Ele também disse que, em relação a Groenlândia, não pode depender da Dinamarca. Com isso, o petróleo reverteu os ganhos e passou a ceder mais de 1% no pregão eletrônico. O movimento não teve grande repercussão no dólar futuro para fevereiro.

No cenário doméstico, pesquisa Genial/Quaest mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderando cenários no segundo turno, mas com menor vantagem sobre candidatos de direita. “Com base na fotografia atual do cenário eleitoral, entendemos que, embora Lula permaneça como o favorito, sua vitória em outubro está longe de ser tratada como dado adquirido”, afirma a Warren Investimentos.

Bolsa

O Ibovespa chegou a titubear, cedendo parte do ímpeto na última hora do pregão, mas recobrou fôlego mesmo com a reviravolta sobre o petróleo, no fim da tarde, que vinha amparando desde cedo o salto nas ações de Petrobras. Resiliente, o índice renovou tanto o recorde de fechamento aos 165.145,98 pontos, em alta de 1,96%, como também o intraday, aos 165.146,49 pontos, bem perto do ajuste final.

Foi a maior alta em porcentual desde 22 de agosto (+2,57%) para o Ibovespa, que já vinha muito bem até as 17h quando, pontualmente, perdeu parte da força com o sinal de que o governo dos Estados Unidos pode vir a mostrar uma tolerância maior com o Irã – o que resultou em uma guinada no petróleo, de ganhos para perdas de 2% em Londres e Nova York, no pior momento da tarde para os preços da commodity.

O retrato final do dia, contudo, foi de Ibovespa pela primeira vez a 165 mil pontos em fechamento, rompendo com folga a máxima histórica de encerramento, de 164.455,61, de 4 de dezembro. Nesta quarta-feira, 14, de muita força no índice, o Ibovespa saiu de mínima a 161.974,19 pontos correspondente ao nível de abertura. Ao fim, com giro reforçado a R$ 65,5 bilhões pelo vencimento de opções sobre o índice, o Ibovespa amplia o ganho agregado na semana a 1,09% e o do ano a 2,50%.

Como na terça, a pressão de alta sobre o petróleo deu impulso ao setor de energia desde cedo, tendo Petrobras mais uma vez à frente. Contudo, alta de mais de 5% na ON e de 4% na PN, na etapa vespertina, foi acomodada na reta final do dia, com a mudança de sinal da commodity em Londres e Nova York após declarações do presidente americano, Donald Trump. O petróleo, que subia quase 2% mais cedo, chegou a cair quase 3% nas duas praças no fim da tarde, com a observação de Trump, no sentido de que execuções de manifestantes no Irã teriam acabado.

O comentário foi interpretado como uma redução de tom na retórica do presidente dos EUA, que havia sinalizado a intenção de mobilizar inclusive meios militares contra o país persa, importante produtor de petróleo, caso prosseguisse a repressão de manifestantes que resultasse em mortes. Ao fim, Petrobras ON marcava alta de 3,63% e a PN, de 2,73%. Tal relativa acomodação foi mais do que compensada por Vale ON, principal papel do Ibovespa, em alta de 4,74% no fechamento. Também contribuiu o ganho de fôlego das ações de grandes bancos na reta final, em alta que chegou a 2,08% (BTG Unit) no encerramento. As demais instituições mostraram avanço entre 1,10% (Itaú PN) e 1,81% (Bradesco PN) na sessão.

Para Luise Coutinho, head de produtos e alocação da HCI Advisors, papéis que estão entre os carros-chefes da B3, como os de Vale, Petrobras e Itaú, também foram favorecidos por fluxos de compra na sessão, em razão de “recomendações positivas de grandes bancos de investimento para o mercado brasileiro”. Na ponta ganhadora do Ibovespa, além de Vale, destaque também para Bradespar (+4,32%) e TIM (+4,30%). No campo oposto, MRV (-5,34%), Rumo (-4,26%) e Marcopolo (-2,21%).

Em análise gráfica, a equipe de pesquisa do Itaú BBA para ações observa que o Ibovespa mostrava sinais de que ainda não estaria “pronto” para superar a resistência mais importante: a região da máxima histórica intradia de 165 mil pontos, vista durante a sessão de 5 de dezembro último e rompida no fim da tarde desta quarta.

“É importante destacar que, mesmo que o índice renove sua máxima histórica intradia, ainda não teremos a máxima dos últimos 12 meses na maior parte dos índices setoriais, o que pode manter o mercado seletivo por mais algum tempo”, acrescenta o Itaú BBA, em relatório divulgado mais cedo. Ainda assim, a equipe de pesquisa do banco aponta que, se o índice viesse a superar a região dos 165 mil pontos, passaria a mirar, como primeiro objetivo, a marca de 180 mil pontos.

Na sessão desta quarta-feira, o prosseguimento da tensão geopolítica no Oriente Médio fez com que a exposição da Bolsa brasileira às ações de Petrobras e ao comportamento da commodity descolasse o Ibovespa do dia negativo em Nova York, onde o S&P 500 cedeu 0,53% e o Nasdaq, 1,00%. A incerteza sobre a possível intervenção direta dos Estados Unidos na turbulência interna do Irã levava o petróleo a subir mais de 1% na sessão, mais cedo, em avanço construído sobre um ganho superior a 2% no dia anterior. Contudo, os mais recentes comentários de Trump, do fim da tarde, foram recebidos como um apaziguamento, retirando a pressão de alta que se via sobre os preços da commodity.

“O setor de petróleo ainda ajudou bastante com a tensão no Oriente Médio. Pelo peso que tem na B3, foi fundamental para este descolamento de Nova York”, diz Patrick Buss, operador de renda variável da Manchester Investimentos.

Mesmo amparado pela tensão global, o Ibovespa também refletiu em segundo plano fatores domésticos, como a nova pesquisa eleitoral Genial/Quaest. O levantamento trouxe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda à frente dos demais potenciais candidatos, mas com uma margem menor de diferença. “Consideramos que a pesquisa mantém Lula como favorito, mas traz sinais de alerta para a campanha de reeleição do petista”, aponta em nota a Warren Investimentos.

“Ponto de alerta para Lula: no grupo de eleitores que fogem da polarização ou se colocam como independentes, identifica-se certa fadiga com o presidente”, acrescenta a casa, observando que, nesses agregados, “64% dizem que o presidente não merece ficar mais quatro anos”.

Por outro lado, a Warren aponta também que a “fragmentação da direita prejudica bastante” uma eventual candidatura à Presidência de Tarcísio de Moraes, governador de São Paulo e candidato preferido do mercado, por ser considerado como o mais comprometido com um futuro ajuste fiscal – a partir de 2027, caso eleito ao Planalto. A Warren observa que Tarcísio tem melhor desempenho, no primeiro turno, quando se reduz a fragmentação ainda observada no campo político à direita.

“Tarcísio emerge como um candidato que pode rivalizar com Lula, refletindo uma mudança no cenário eleitoral”, diz Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital. Segundo ele, a relativa melhora de Tarcísio pode influenciar sua decisão sobre candidatura, mesmo que, atualmente, dependa da aprovação de Jair Bolsonaro – que preferiu, até o momento, apoiar o filho e pré-candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Juros

Os juros futuros negociados na B3 ganharam algum ímpeto e aceleraram o ritmo de alta ao longo da segunda etapa do pregão em relação ao início da tarde, caminhando em sentido contrário à curva dos Treasuries, cujos rendimentos recuaram nesta quarta-feira, 14.

Segundo agentes, o aumento nos prêmios de risco embutidos nas taxas locais ainda foi determinado pela notícia, divulgada na parte da manhã, de que os Estados Unidos vão suspender pedidos de vistos para o Brasil. Embora outros 74 países façam parte da lista que será alvo da medida, participantes do mercado afirmaram à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, que não houve, na sessão desta quarta, outro possível gatilho para a elevação dos DIs.

A curva a termo pouco reagiu à Pesquisa Genial/Quaest publicada nesta quarta, que mostrou estabilidade no índice de aprovação do governo atual, o presidente Lula à frente em todos os cenários de primeiro turno se a eleição fosse hoje, e também com vantagem nas hipóteses de segundo turno – mas com distância mais estreita ante o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Já após a Fox News informar que Washington interrompeu a emissão de vistos para brasileiros – o que foi confirmado depois pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, em sua conta no X, por volta das 13h30 – a dinâmica dos juros se deteriorou. “O humor com o Brasil ficou um pouco pior depois dessa notícia”, disse um economista de uma grande tesouraria à Broadcast.

“Os EUA congelaram todo o processamento de vistos para 75 países, incluindo Somália, Rússia e Irã”, publicou Leavitt no X, com um link para um artigo da Fox News Digital divulgado nesta quarta e que revelou a decisão do governo Trump.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,693% no ajuste anterior a 13,74%. O DI para janeiro de 2029 avançou de 12,966% no ajuste a 13,035%. O DI para janeiro de 2031 ficou em 13,34%, vindo de 13,29% no ajuste.

Segundo André Muller, economista-chefe da AZ Quest Investimentos, em um primeiro momento, a questão dos vistos foi interpretada pelos agentes do mercado como uma sanção dos EUA ao Brasil, e afetou tanto os juros futuros quanto o câmbio. Na parte da tarde, porém, apenas os DIs persistiram em alta mais pronunciada, enquanto a moeda americana voltou a andar de lado – mas acelerou o ritmo na etapa final do pregão.

“A suspensão está mais relacionada à questão de imigrantes que chegam nos Estados Unidos e usam o sistema de assistência social americano. Não tem muito a ver com esse contexto de sanção e temas relacionados à geopolítica”, ponderou Muller, para quem não houve condutor muito claro para a alta dos juros na segunda etapa da sessão. “A liquidez está baixa. Se teve algum fluxo dos juros neste momento, poderia gerar esse movimento mais estressado”, observou.

Já Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG, avalia que, à exceção da suspensão dos vistos americanos ao Brasil, não houve nenhum outro dado ou notícia que tenha feito preço nos juros futuros nesta quarta. “De manhã, o que afetou os juros foi a notícia dos vistos. Depois não teve mais nada”, comentou.

Já nos EUA, por volta das 18h, o rendimento da T-Note de 2 anos cedia a 3,518%, o retorno da T-Note de 10 anos recuava a 4,143%, e o juro do T-Bond de 30 anos diminuía a 4,793%, em uma reação de maior aversão a risco que provocou a busca por ativos mais seguros, diante do ambiente global mais tensionado na geopolítica. Na abertura, os juros chegaram a seguir a tendência da curva americana, mas o alívio não perdurou.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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