Fundada em 1965, a TV Globo teve sua primeira protagonista negra em uma novela das 8 apenas em 14 de setembro de 2009 – por décadas, as emissoras não costumavam dar espaços de notoriedade a artistas que não fossem brancos. Foi uma Helena de Manoel Carlos, autor consagrado que morreu neste sábado, 10, aos 92 anos de idade. Naquela ocasião, o papel ficou a cargo de Taís Araújo, em Viver a Vida. O autor, porém, não acreditava que o fato merecesse tanto destaque. “Poderia ser japonesa, para mim não faria diferença”, disse, à época.
Em entrevista ao Estadão, publicada em 11 de setembro de 2009, três dias antes da estreia da trama, foi perguntado sobre a questão: “Pela 1.ª vez, a Helena é jovem e negra. Qual é a importância que você dá a essas duas informações?” A resposta: “Só dou importância ao fato de ser jovem. É natural que todos pensem que o principal é que ela é negra, mas não é.”
Manoel Carlos revelou que sua ideia inicial era de uma Helena “solteira, entre 25 e 30 anos, que fosse bem-sucedida na profissão e viajasse bastante”. Cogitou uma atriz, mas achou que o melhor caminho seria uma modelo. “Por isso, não importa o fato de ela ser negra. O mais importante é que ela convença como top model, e a Taís, que tem uma beleza internacional, convence.”
O autor foi indagado novamente: “Então, a novela não levanta a bandeira dos direitos raciais?” “Não, nada. Até pode surgir, porque tenho outros personagens negros. Mas definitivamente não é uma bandeira”, respondeu.
Manoel Carlos ainda refletia sobre a questão: “Os artistas escapam disso. Ninguém fala de um ator negro dando a raça em primeiro lugar. Denzel Washington? Excelente ator – ninguém diz ‘um grande ator negro’. Queria uma profissão que estivesse acima de qualquer conotação racial. Agora, é evidente que quando saiu a notícia de que a Taís seria a Helena, todo mundo associou – ‘vai ser a primeira Helena negra’. Não, será a primeira Helena jovem. Poderia ser japonesa, para mim não faria diferença.”
Em entrevista ao Estadão em 2019, por ocasião do aniversário de 10 anos do lançamento da novela, Taís Araújo comentou as declarações do autor: “Eu entendo o Maneco. Esse desejo, na época, também era um desejo meu – Olha que loucura!”
“Minha ingenuidade era tão grande quanto ao Brasil que, na época, eu achava que o Brasil era aquele cordial que foi vendido para a gente a vida inteira. Uma ingenuidade de que ‘não precisa tocar nesse assunto’. E não, precisa, sim, tocar nesse assunto. A gente não pode deixar os assuntos serem ignorados enquanto tem coisas a se resolver”.
A Helena de Manoel Carlos em Viver a Vida
Interpretada por Taís Araújo, a personagem era uma modelo de sucesso internacional. Casava-se com Marcos (José Mayer), mas não tinha boa aceitação de parte da família do marido, em especial sua ex-mulher, Teresa (Lília Cabral) e sua filha, Luciana (Alinne Moraes). Mais à frente na trama, se envolvia também com o fotógrafo Bruno (Thiago Lacerda) – que posteriormente era revelado como filho de Marcos.
Helena também contracenava com a mãe, Edite (Lica Oliveira), o pai, Oswaldo (Laércio de Freitas), a irmã, Sandrinha (Aparecida Petrowki), o irmão, Paulo (Michel Gomes) e a amiga Ellen (Daniele Suzuki).
Em entrevista ao Fantástico, em 2025, Taís Araújo revelou que chorava por conta da repercussão negativa da personagem, mas valorizava: “Helena não foi só ‘um’ trabalho, foi ‘o’ trabalho. Não era o fantasma que pintei. Pelo contrário, foi transformadora para muitas mulheres. A quantidade de mulheres que encontro e falam: ‘Deixei meu cabelo ficar crespo porque te vi na novela’…”
Taís Araújo também é considerada a primeira atriz negra protagonista de uma telenovela brasileira incluindo todas as emissoras, quando fez Xica da Silva, em 1996, na Rede Manchete. Em 2003, foi a primeira negra protagonista de uma novela da Globo, Da Cor do Pecado, no horário das 7.


