Ibovespa volta duas casas, aos 161 mil; dólar tem leve alta em dia ruim para commodities

Na medida em que se aproxima a agenda mais forte da semana, na sexta-feira, o Ibovespa dá dois passos atrás para acomodação, após ter encerrado o dia anterior na casa dos 163 mil pontos, o segundo maior nível de fechamento de que se tem registro na B3. Hoje, invertendo também o que se viu ontem, operou no negativo desde a abertura, aos 163.660,52 pontos, e encerrou em baixa de 1,03%, aos 161.975,24 pontos, com giro financeiro a R$ 24,9 bilhões. Na mínima do dia, buscou os 161.745,83 pontos. Na semana, ainda avança 0,89% e, no ano, 0,53%.

Destaque da agenda de dados desta quarta-feira, o relatório privado sobre a geração de empregos nos EUA, da ADP, mostrou a criação de 41 mil vagas em dezembro, abaixo da expectativa de consenso, de 48 mil, o que reforça a percepção de desaceleração do mercado de trabalho no país, aponta Luise Coutinho, head de Produtos e Alocação na HCI Advisors. Embora os dados da ADP não sejam estreitamente correlacionados, a leitura normalmente é vista como uma proxy do que pode vir na sexta-feira, quando será divulgado o resultado oficial, o payroll, fundamental para a orientação dos ajustes de juros nos Estados Unidos.

“A ata da última reunião mostrou um comitê do Federal Reserve muito dividido. Enquanto os dados fracos de emprego dão argumentos para quem defende a redução das taxas para estimular o país, a inflação ainda persistente e as incertezas sobre novas tarifas de importação e as políticas fiscais em andamento pesam no sentido contrário”, acrescenta. Segundo ela, ante o cenário de dúvidas, a aposta do mercado é de que o banco central americano opte pela cautela e mantenha a taxa de juros na sua próxima reunião de política monetária, em 28 de janeiro.

Para Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, a leitura fraca sobre o mercado de trabalho suscita cautela no sentido de um enfraquecimento de ritmo da economia que, no limite, poderia resultar mesmo em uma recessão nos Estados Unidos, apesar do processo em curso de redução de juros por lá. Nesta perspectiva, os principais índices de ações em Nova York encerraram o dia sem direção única, com variações entre -0,94% (Dow Jones) e +0,16% (Nasdaq).

Por aqui, na mesma sexta-feira do payroll, será conhecido o IPCA de dezembro, destaque da agenda doméstica da semana.

Hoje, o mercado refletiu também a cautela diante dos desdobramentos envolvendo a invasão americana à Venezuela, e a sinalização de maior oferta de petróleo aos Estados Unidos, fatores que pressionam os preços das commodities e impactam, principalmente, as ações da Petrobras, observa Marcos Vinícius Oliveira, economista e analista sênior da ZIIN Investimentos. “A expectativa é de que esse aumento de oferta via Venezuela possa pesar sobre as cotações do petróleo no médio prazo”, acrescenta.

“A bolsa brasileira acompanhou ambiente mais defensivo, refletindo não apenas o aumento da cautela, mas também um movimento de realização de lucros, especialmente após os ganhos acumulados ao longo de 2025 quando o Ibovespa acumulou alta de cerca de 34%. Parte dos investidores aproveita o momento para reduzir exposição e proteger resultados”, diz Gustavo Gomes, head de renda variável da AVIN.

Segundo ele, de forma geral, o pregão combinou pressão moderada sobre o câmbio, juros com menor inclinação, sobretudo nos vencimentos mais curtos, e uma bolsa em ajuste de posições em razão do ambiente de maior aversão ao risco.

Dólar

Após quatro pregões consecutivos de queda, em que acumulou perdas de 3,39%, o dólar exibiu leve alta na sessão desta quarta-feira, 7, mas se manteve abaixo de R$ 5,40. Operadores afirmam que o ambiente negativo para divisas emergentes, com queda do petróleo e de commodities metálicas, abriu espaço para ajustes e realização de lucros no mercado doméstico de câmbio.

Dados de emprego e atividade nos EUA reforçaram a perspectiva de que o Federal Reserve vai manter a taxa básica de juros americana inalterada em seu encontro de política monetária neste mês e podem ter contribuído para o fortalecimento da moeda americana. Questões geopolíticas, como os planos americanos para o petróleo da Venezuela e as ameaças dos EUA à Groenlândia, foram apenas monitoradas.

Com máxima de R$ 5,4010 e mínima de R$ 5,3690, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,13%, a R$ 5,3870. Ontem, a divisa terminou o pregão no menor nível de fechamento desde 4 de dezembro, véspera do anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República. Depois de subir 2,89% em dezembro, quando se aproximou de R$ 5,60, a moeda acumula queda de 1,86% neste início de janeiro.

“Vimos uma leve alta do dólar hoje, em linha com o comportamento em relação a outras divisas emergentes. Tem também um fator técnico de correção após alta do real nos últimos dias”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, ressaltando que os “ruídos institucionais” relacionados ao Banco Master podem ter contribuído para uma postura mais defensiva dos investidores.

Lá fora, o índice DXY – que mede o comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes – operava em tímida elevação no fim da tarde, ao redor dos 99,680 pontos, após máxima aos 98,705 pontos. O Dollar Index avança cerca de 0,40% em janeiro.

Pesquisa divulgada pela ADP revelou que o setor privado dos EUA criou 41 mil empregos em dezembro, abaixo das expectativas dos analistas, de 48 mil. Do lado da atividade, o índice de gerentes de compras (PMI) do setor de serviços dos EUA, medido pelo Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês) avançou de 52,6 em novembro a 54,4 em dezembro, na contramão da previsão dos analistas de queda a 52,2.

As atenções se voltam para a divulgação na sexta-feira, 9, do relatório de emprego (payroll) referente a dezembro, que pode mexer com as apostas em torno dos próximos passos do Federal Reserve. Monitoramento do CME Group mostra que as chances de manutenção em janeiro superam 80%. A probabilidade de que a taxa permaneça inalterada também em março subiu hoje de 52% para quase 58%. Depois de reduzir os juros em 75 pontos-base no ano passado, o Fed voltaria a afrouxar a política monetária em abril.

“O mercado está à espera do payroll para entender de fato como anda o mercado de trabalho e projetar os próximos passos do Banco Central americano. Isso acaba trazendo uma postura mais cautelosa e ajuda a fortalecer o dólar”, afirma Quartaroli, do Ouribank.

Por aqui, o BC informou à tarde que o fluxo cambial total foi negativo em US$ 13,562 bilhões em dezembro, com saídas líquidas de US$ 20,982 bilhões pelo canal financeiro, que abrange as remessas de lucros e dividendos. No ano, o saldo total foi deficitário em US$ 33,3 bilhões. Em dezembro do ano passado, marcado pela maior intervenção do BC no regime de câmbio flutuante, o fluxo total havia sido negativo em US$ 27 bilhões.

O economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, afirma que o “fluxo negativo e o maior pessimismo com o cenário político doméstico” provocaram a depreciação do real em dezembro, período em que a moeda brasileira apresentou o pior desempenho entre divisas emergentes.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 passaram ao largo da dinâmica de correção nos demais ativos domésticos observada hoje e tiveram outro pregão de relativa calmaria, em mais um dia sem condutores relevantes locais e liquidez escassa nos negócios.

Em leve alta até o início da tarde, a parte curta da estrutura da curva a termo inverteu o sinal e passou a operar em queda modesta por volta das 13 horas. Os trechos intermediários e longos se mantiveram em discreta oscilação, e encerraram praticamente de lado. “O volume de negócios ainda está bem baixo nesse início de ano. A curva pré é a que está sendo mais afetada por isso, com movimentos um pouco sem sentido a semana toda”, disse um economista de uma grande tesouraria à Broadcast.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 passou de 13,723% no ajuste de terça-feira para 13,685%. O DI para janeiro de 2029 anotou aumento de 12,982% no ajuste de ontem para 12,99%. O DI para janeiro de 2031 marcou 13,335%, vindo de 13,304% no ajuste.

Perto das 18 horas, o retorno do T-Note de 2 anos estava praticamente estável, a 3,469%. O juro do T-Note de 10 anos cedia a 4,140%, e o do T-Bond de 30 anos recuava a 4,821%. Dados mais fracos do mercado de trabalho americano conhecidos hoje deram suporte à redução das taxas.

Publicado nesta manhã, o relatório ADP mostrou que o setor privado dos EUA criou 41 mil empregos em dezembro. A expectativa de analistas consultados pela FactSet era de geração de 48 mil postos. Já o relatório Jolts indicou que, em novembro, havia 7,1 milhões de vagas em aberto na economia americana, ante dado revisado de 7,4 milhões em outubro.

“O relatório Jolts de novembro mostrou uma desaceleração nas ofertas de emprego, abaixo das expectativas e do mês anterior, refletindo um mercado de trabalho menos aquecido, ainda influenciado pelo shutdown”, afirma a BuysideBrazil em relatório a clientes. “O cenário reforça a ideia de um mercado de trabalho em moderação: ainda capaz de gerar empregos, mas com menor intensidade e acompanhado por ajustes nas demissões”, diz a consultoria.

Já no mercado doméstico, não há nada no radar até sexta-feira que possa fazer muito preço nos juros futuros, avalia Tiago Hansen, diretor de gestão e economista da Alphawave Capital. Além da divulgação do payroll nos EUA e do IPCA por aqui, Hansen menciona que, no dia 09, existe a possibilidade de que a Corte americana julgue a constitucionalidade das tarifas comerciais impostas pela administração Trump a outros países.

Estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz afirma que, conforme se aproxima a próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, no final deste mês, mais casas estão consolidando a projeção de que o primeiro corte na Selic ocorrerá em março, o que começa a fazer efeito no mercado.

“Tem uma minoria que aposta em abril, aqueles que acham que só pode cortar juros quando a inflação está exatamente na meta, o que não nos parece razoável”, diz Cruz. Para o estrategista, o BC teria condições técnicas de diminuir a Selic em janeiro. Como o discurso da autoridade monetária tem sido conservador, no entanto, a RB prevê que o primeiro corte será em março.

Este também é o cenário contemplado pela Santander Asset, que projeta o juro básico em 12,5% ao final de 2026 – com redução, portanto, de 2,5 pontos porcentuais. “Uma apreciação mais intensa do real ou sinais mais claros de desaceleração da atividade poderiam justificar o início do ciclo já em janeiro”, observa a gestora em carta mensal publicada nesta quarta.

A asset do Santander segue com visão positiva para o mercado de renda fixa local este mês, devido à perspectiva de continuidade do processo de relaxamento monetário nos EUA e, no lado doméstico, à reprecificação das curvas de juros ocorridas no final de 2025 e à evolução favorável da inflação.

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Por Redação Folha de Guarulhos.

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